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Casa que teria abrigado amor de Castro Alves e Eugênia é atração no Barro

Por Jota | 15 de novembro de 2017

Um casarão de térreo e primeiro andar erguido num terreno amplo e hoje já com horizonte roubado por arranha-céus é patrimônio da história do Barro, na Zona Oeste do Recife. Isso por que o imóvel, localizado na Avenida José Rufino e hoje com aspecto de abandonado, é tratado por muitos como o possível refúgio do casal Castro Alves e Eugênia Infante da Câmara, no século XIX.

Segundo informações de documentos da Fundação Joaquim Nabuco e da Biblioteca Nacional, uma casa, situada no Barro, “próximo à localidade Tejipió”, foi palco do idílio amoroso entre o estudante baiano e a atriz portuguesa que abandonou os palcos para viver sua paixão pelo adolescente e futuro poeta da abolição.

Não encontrei provas de que este seja exatamente o “ninho de amor” que entrou para a história do Recife e virou testemunha da movimentada e precoce vida amorosa de Castro Alves. Mas, como já informado, é assim que ele é tratado por muitos. Ali estaria “a casa de Castro Alves”.

A informação perpetuada pelo boca-a-boca não é contestada cientificamente. Mas é tese rechaçada por outros tantos. Há quem argumente que, pelo estilo, a casa é mais recente e que por isso não pode ter sido o tal o endereço do casal.

Não há dados sobre o possível ano de construção nem se o imóvel passou por reformas. Mas, pelo aspecto externo, demonstra estar bem preservado.

Voltando às pesquisas sobre o romance vivido no Barro, fica-se sabendo que o poeta, um frequentador assíduo do Teatro de Santa Isabel, conheceu Eugênia Infante da Câmara naquela de espetáculos.

Vejamos o que registra a Fundaj sobre a trajetória da Castro Alves.

“Então com 26 anos, ela era descrita como uma bela e bem sucedida atriz portuguesa, por quem ele cairia perdidamente de amores.

Cabe salientar que, com a idade de 16 anos, imberbe e apaixonado, o poeta jamais levaria em consideração alguns fatores que poderiam pesar contra tal escolha: sua musa era dez anos mais velha que ele, tinha se casado antes (com o ator Luís Cândido Furtado Coelho) e possuía uma filha. Além disso, tendo se separado do marido, era a amante de um rico português chamado Veríssimo Chaves.

Do ponto de vista de Castro Alves, Eugênia era, além de bonita, uma mulher experiente e possuidora de uma mentalidade muito aberta. E, para a atriz, representar a fonte de paixão de um jovem poeta, charmoso e genial, era algo que ela gostava.

Nesse período, inspirado no amor sentido pela atriz, o poeta escreveria Meu segredo:

[…] Mas que louco sonhar…Ó minha amante,

Que nunca nos meus braços desmaiaste,

Que nem sequer de amor uma palavra

Dos meus lábios em fogo inda escutaste,

Perdoa este sonhar vertiginoso!

Foi um sonho do peito deliroso!

….Recorda-te do pobre que em silêncio

De ti fez o seu anjo de poesia,

Que tresnoita cismando em tuas graças.

Que por ti, só por ti, é que vivia,

Que tremia ao roçar de teu vestido,

E que por ti de amor era perdido..

Sagra ao menos uma hora em tua vida

Ao pobre que sagrou-te a vida inteira,

Que em teus olhos, febril e delirante,

Bebeu de amor a inspiração primeira,

Mas que de um desengano teve medo,

E guardou dentro d’alma o seu segredo.

Em 1864, Castro Alves entraria na Faculdade de Direito do Recife. Combatendo fortemente a escravidão, ele sonhava com a libertação da raça negra, tendo como mentor, do ponto de vista intelectual, o grande estadista americano Abraham Lincoln, o presidente que, em 1863, aboliria a escravatura nos Estados Unidos.

Eugênia da Câmara, enquanto isso, a primeira atriz da Companhia de Duarte Coimbra, continuaria sendo a maior fonte do seu amor. E o poeta, com um sorriso nos lábios, com um verso ou um convite para fugirem, sempre estaria na platéia a cortejá-la.

Quem poderia resistir ao maior poeta do Brasil?

A fim de ser amada pelo adolescente, a atriz terminaria concordando em sacrificar a carreira. E o casal iria morar no Barro, perto da localidade de Tejipió. Nesse período, além de inúmeros poemas, o poeta também escreveria o drama intitulado Gonzaga ou A Revolução de Minas, o qual foi encenado pela primeira vez no dia 7 de setembro de 1867.

Vale a pena ressaltar que, apesar de todos reconhecerem a excelência da produção poética de Castro Alves, esse métier não lhe rendia dinheiro: ele sobrevivia às expensas de uma mesada de 80 a 100 mil réis, que a família mensalmente lhe enviava.

Ainda em 1867, o poeta abandonava o curso de Direito, embarcando com Eugênia para Salvador. Nessa cidade, mesmo tendo sido muito bem recebido por parentes e amigos, o jovem não quis se hospedar com Eugênia na casa da família, já que vivia com ela uma situação bem pouco ortodoxa para a época: foi morar com a atriz no Hotel Figueiredo, situado no antigo largo do Teatro, hoje chamado de Praça Castro Alves.

Mas, os rumores da vida privada do casal se espalhariam pelas vias públicas, dando margem à seguinte indagação: aonde já se viu um rapaz de boa família, aos 20 anos de idade, ter como amante uma atriz cômica de 30 anos, já separada do marido e mãe de uma filha?

Disse-me-disse à parte, Castro Alves e Eugênia quebraram convenções e romperam padrões morais. E nesse processo puseram a Zona Oeste do mapa dessa “afronta” aos bons costumes.

O casarão está vazio há muitos anos. Em novembro de 2016, um texto publicado e compartilhado no Facebook afirmava que o imóvel seria demolido.

Pelo menos até agora, a construção permanece de pé. E embora, tudo nela pareça esquecido, deixado para trás – há entulhos no pátio e as poucas árvores estão descuidadas –  há ainda beleza no lugar.

Leia mais sobre a biografia de Castro Alves e seus dias em Pernambuco, AQUI e AQUI

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OBS: A matéria, roteiro e giro por bairros da Zona Oeste tiveram produção do jornalista Ronaldo Patrício e auxílio precioso de Ricardo e Rogério Patrício. O Antes que suma agradece!