Antes que Suma

Vila dos Comerciários ajuda a contar história de moradia na Zona Norte

Por Jota | 9 de agosto de 2018

Um trecho do bairro da Tamarineira, entre a Avenida Norte e a Estrada do Arraial, na Zona Norte do Recife, guarda ainda viva, embora bastante alterada, uma vila que é um “documento” de como a classe média morava no Brasil dos anos 1930.

Trata-se da Vila dos Comerciários,  que também é testemunha de como se desenvolvia a política habitacional no período da Ditadura de Getúlio Vargas.

Segundo moradores que já somam décadas de vida na vila, os imóveis tiveram financiamento de instituições públicas ligadas à Previdência Social da época.

Muitas dessas residências foram entregues como pagamento de indenização ou aposentadoria, segundo informa o Wikimapia.

Um texto do Blog Agenda Cultural sobre o bairro da Tamarineira informa que a Vila foi criada no final da década de 1930 e início na década de 1940, sendo arquitetada pelo urbanista inglês Ebenezer Howard.

Foram erguidas 311 residências com um mesmo padrão arquitetônico, idealizadas a partir do conceito de “cidade-jardim”.

De acordo com o Wikimapia, a vila é formada por conjuntos com térreo e primeiro andar interligados por vãos livres e espaços de convivência arborizados. Nela vivem aproximadamente mil moradores.

Quase 80 anos depois, a unidade de estilo e linhas arquitetônicas está comprometida. Ao se andar pelas quatro ou cinco ruas da vila, observa-se a presença de intervenções de toda ordem das casas.

Há desde grades, portões, elevação de muros e uso de azulejos e cerâmicas a puxadinhos e alterações em teto, janelas e portas.

Além de “modernizações” geralmente explicadas por aumento de família e necessidade de garagem, a necessidade de se proteger contra assaltos justifica as agressões.

O texto do Blog Agenda Cultural destaca que o conjunto de casas que antes eram idealizadas por um conceito perdeu a sua essência.

De todo modo, o Antes que suma conseguiu “garimpar” alguns exemplares em que o desenho original prevalece.

As casas são lindas. Têm dois pisos, térreo e primeiro andar, com teto de duas águas.

O desenho da escada, com corrimão de cerâmica vermelha e um pequena proteção telhada no topo, sobre a porta de entrada, forma um “cenário” agradável aos olhos.

As aberturas em arco abaixo da escada também ajudam a embelezar as construções

Aparentemente os pisos são independentes, sendo ligados por uma escada externa.

Todavia, cada unidade fica num terreno amplo, separado pelas casas vizinhas por muros, dando a entender que a moradia é composta mesmo pelos dois pisos.

Outra curiosidade. O fundo de cada casa dá para outra casa erguida atrás, com fachada voltada para a rua paralela. São construções geminadas e quase 100% espelhadas.

Não são totalmente porque parte das paredes de fundo é independente ou livre. Essa parte que não é “colada” na outra forma um desencontro no alinhamento entre as casas.

Em conversa informal com moradores, fica-se sabendo que a vila contou com um ritmo próprio de vida, uma vez que todos se conheciam, conviviam e cultivavam hábitos de ocupar ruas e espaços públicos com tranquilidade.

Hoje, resta pouco da convivência. Mas, em conversas no mercadinho fica-se sabendo que um livro sobra a história da Vila dos Comerciários está sendo preparado.

No site Por Aqui a Vila é apontada como berço de “um dos mais cultuados grupos do rock pernambucano. Ali, se reuniram os integrantes da banda Ave Sangria, que gravou um dos vinis nacionais mais procurados até hoje”.