Vazio desde 2015, Edifício Andes tem demolição como destino em Boa Viagem

O Edifício Andes, número 1950 na Avenida Conselheiro Aguiar, é um dos “heróis da resistência” em Boa Viagem. Mas, tudo indica que esta resistência tem a ver com o desaquecimento do mercado.

Desde 2015, o Antes que suma tem registrado o processo de “abandono” do prédio que é um dos poucos representantes de uma arquitetura mais humanizada, que dialogava com a rua e com a cidade.

O início da ocupação residencial de Boa Viagem, fato que sucedeu o caráter de bairro de veraneio, fez surgir pequenos edifícios de apartamentos naquela área da cidade.

Era meados do século XX e as construções estavam longe de se tornar nos arranha-céus repletos de vidro espelhados e fechados em si mesmo, com guaritas, grades e muros gigantes, como garantia de privacidade e segurança.

Assim como pode se observar no Andes, os prédios tinham poucos pavimentos – entre três e cinco – e as linhas arquitetônicas privilegiavam um estilo muito próximo às casas – é só observar o formato do teto, os janelões, o muro baixo e espaço para jardim.

Pois bem, já em 2015, segundo informaram leitores do era apenas uma fanpage, o prédio foi desocupado já para ser preparado para a demolição, evento que abriria caminho para o surgimento de mais um empresarial-espigão.

Um morador chegou a resistir, ficou morando sozinho no local mas teve de deixar o apartamento – e, certamente, foi obrigado a deixar para trás suas memória e parte da história da sua vida.

Agora, dois anos depois, o prédio segue em pé, mas abandonado. “Aguarda” o momento em que a construtora decidirá derrubá-lo.

Comparando as seis primeiras fotos com as demais, pode se observar como a deterioração avançou entre 2015 e 2107.

As seis primeiras imagens foram enviadas na semana ao antesquesuma@gmail.com pelo fotógrafo e editor da fanzinemulti.com.br, Gil Vicente.

As 13 seguintes foram encaminhadas em julho de 2015 pelo leitor-colaborador Jay Pimentel. As três últimas foram remetidas pela jornalista Roberta Soares, em janeiro daquele mesmo ano

O Andes está localizado, curiosamente, na mesma região onde está o edifício Oceania, imóvel-personagem do filme do Aquarius, de Kléber Mendonça Filho, lançado em 2016.

Aliás, assim como ocorreu no Andes, o filme mostra a resistência de uma moradora diante das pressões de uma construtora para ela deixar o prédio.

O edifício da Conselheiro Aguiar fica próximo também de onde existiu o Caiçara, prédio que, após uma disputa judicial, foi demolido, empobrecendo a memória da Zona Sul e matando a memória daquela área da cidade.

O Oceania resiste – habitado e funcional – na Avenida Boa Viagem, no Pina. O Caiçara ficava na mesma avenida, a metros do primeiro.

Como o Caiçara, o Andes caminha para ser apenas mais uma lembrança da história de Boa Viagem e, segundo informações do mercado, terá como “algoz” a mesma construtora Rio Ave.

A Zona Sul do Recife vem perdendo identidade, charme e qualidade de vida e confirma seu destino: um amontoado de prédios cercados de engarramentos e vias com esgotos estourados.

 

Edifício Andes, número 1950 da Avenida Conselheiro Aguiar 

PATRIMÔNIO DO CHÃO – CAIÇARA É DEMOLIDO E REFORÇA O EMPENHO DA PREFEITURA DO RECIFE E DA JUSTIÇA EM PRIORIZAR PROJETOS DE CONSTRUTORAS (RIO AVE, NO CASO) EM DETRIMENTO DA HISTÓRIA DA CIDADE

Oceania: o lindo prédio do filme Aquarius é símbolo de resistência na Zona Sul 

Aquarius estreia e estimula debate sobre preservação e memória afetiva 

 

 

 

 

Quem Somos

Josue_NogueiraJosué Nogueira, jornalista formado pela UFPE, com pós-graduação em História Contemporânea pela mesma universidade. Já atuei no Jornal do Commercio, Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco e assessorias de imprensa. Fui repórter e editor de Economia e repórter, blogueiro e colunista de Política. Desde novembro de 2014 edito, no Facebook, a página Antes que suma.

A comunidade virtual e também o site surgiram para documentar a existência de imóveis com valor arquitetônico e histórico que resistem ao descaso de proprietários, à desatenção do poder público e à ganância do mercado de Pernambuco, do Recife em especial. Também têm espaço aqui aqueles que estão mantidos em bom estado e funcionais, provando que o passar do anos não é sinônimo de inutilidade.

O trabalho, portanto, joga luz sobre belezas e peculiaridades de construções de estilos diversos, simples ou suntuosas, que testemunham o passar do tempo e são documentos da conexão do homem com a arquitetura. Sejam elas moradias, edificações públicas ou privadas, comerciais ou religiosos. Enfim, a razão de ser da página e do site é a busca pela valorização e preservação desse patrimônio tão desrespeitado.

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Onde denunciar

Caminhos para se denunciar agressões ao patrimônio e iniciar processo de tombamento ou transformação em Imóvel Especial de Preservação (Iep)

Denúncias de agressão a um imóvel que mereça ser preservado podem ser apresentadas à Diretoria de Proteção de Patrimônio Cultural do Recife, Promotoria do Meio Ambiente e Patrimônio Histórico (Ministério Público), Fundarpe e Iphan.

O ideal é explicitar a relevância histórico-cultural do imóvel e, se possível, um estudo nesse sentido.

A denúncia pode ser feita por particulares, mas se for pelo próprio Poder Público, mais força tem. A Diretoria de Proteção do Patrimônio Cultural do Recife(DPPC) faz esses estudos.

Pode-se também protocolar um pedido de tombamento, tanto na (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) como Instituto do Patrimônio Histórico e Arstístico Nacionak – Iphan

 A lista dos imóveis que estão sendo objeto de estudo para poderem virar IEP fica na DPPC. Para se ter acesso a ela, pode-se tentar um pedido de informações. Não está claro que se os estudos ocorrem em sigilo ou não.

 IEP e tombamento são institutos distintos. Cada um tem procedimentos e consequências diferentes

Para ver como proceder em relação aos IEPs, é precico consultar a Lei Municipal 16.284/97.

 Para tombamento, o imóvel precisa ser federal ou estadual.

 Se a proteção for negada na esfera administrativa, ainda pode haver ação judicial para declarar um bem como IEP ou para tombá-lo.

 OBS: A lista dos IEPS está como anexo na própria lei que os institui, a Lei Municipal 16.284/97

 (Informações da promotora de Justiça Belize Câmara)

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Legislação

Leis que regulam uso do solo e estabelecem limites à construção carecem de “atualização” no Recife

O conjunto de leis e códigos que rege uso de solo e ocupação de espaços urbanos e estabelece limites para construções no Recife é marcado pela falta de atualização.

A lei do Uso do solo (1983):

É a lei básica que trata de como deve se dar a ocupação da cidade, fixa limites para a construção civil e dá garantias de preservação espaços urbanos.
Inicialmente era restritiva e garantia regras “civilizadas” na relação mercado e cidadania.
Mas, “modernizações” incluídas em 1998, a flexibilizaram e a ocupação desmedida dos espaços foi incentivada. As construções chegaram até as calçadas, sem um centímetro de recuo. Os muros cresceram e deram aspecto de fortaleza a edifícios residenciais e comerciais. Enfim, as construções se desvincularam da cidade.

http://www.recife.pe.gov.br/pr/secplanejamento/servicos/leis/lei16414.pdf

https://pt.scribd.com/doc/88578928/LEI-N-16-176-96-Lei-Ocupacao-Solo-Recife

Lei dos 12 Bairros (Lei Nº 16.719 /2001):

Criou a Área de Reestruturação Urbana – ARU – incluindo os bairros do Derby, Espinheiro, Graças, Aflitos, Jaqueira, Parnamirim, Santana, Casa Forte, Poço da Panela, Monteiro, Apipucos e parte do bairro Tamarineira e estabeleceu novas condições de uso do solo nas áreas.
Por meio dela, foram criadas restrições com a intenção de conter a ocupação desenfreada da Zona Norte e desestimular a acelerada verticalização na região.
Ficaram estabelecidos limitação de gabarito, recuos na área verticalizada, construção de calçadas, áreas verdes. Em suma, tentou-se retomar alguma mais conexão entre os edifícios e a cidade.

http://www.ebah.com.br/content/ABAAAA_K8AI/lei-reestruturacao-urbana-aru-lei-dos-12-bairros

Plano Diretor:

É o instituto máximo da ordenação da cidade e a partir dele o Poder Público deve se guiar no que diz respeito à aprovação de projetos imobiliários considerando o adensamento construtivo, a preservação de patrimônio histórico e arquitetônico, a preservação de bens naturais, artificiais e culturais da sociedade recifense, incluídos aqueles bens que são elementos característicos da paisagem (definição elaborada a partir de texto do grupo Direitos Humanos-Recife.

O Plano Diretor, no entanto, vem sendo desrespeitado e o Poder Público o fere frontalmente. Foi aprovado em 2008, mas não foi regulamentado por completo. Algumas partes foram submetidas à regulamentação, mas de forma isolada. A intenção, pelo menos aparentemente, foi beneficiar setores bem específicos. No mercado, esses ajustes ocasionais foram entendidos como facilitadores do projeto Novo Recife, comandado por consórcio de construtoras que quer erguer torres no Cais José Estelita. Também permitiram o surgimento de arranha-céus na área de proteção histórica da Boa Vista e deu o aval para o plano de ocupação da Vila Naval, em Santo Amaro.

http://www.recife.pe.gov.br/ESIG/documentos/Plano_Diretor/Lei%20Plano%20Diretor
%2017511-2008.htm

 
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