Antes que Suma

Há dois anos o Edifício Caiçara desaparecia e a memória do Pina virava pó

Por Jota | 26 de abril de 2018

Há dois anos, o Edifício Caiçara, na Avenida Boa Viagem, no Pina, foi derrubado completamente.

Em abril de 2016, após ter permanecido por três anos “semi-demolido” e com a carcaça exposta – resultado da ordem judicial que determinou a interrupção da destruição – o prédio foi ao chão.

Foram apagadas naquele dia memórias da beira de praia recifense. A construção de estilo neocolonial erguida no início dos anos 1940 virou pó e também símbolo do desinteresse do poder municipal pela preservação da história e da identidade e da dedicação deste mesmo poder com aos interesses devastadores da construtoras.

Naquele momento, o Antes que suma só existia no Facebook. A página/comunidade publicou o seguinte:

PATRIMÔNIO DO CHÃO
CAIÇARA É DEMOLIDO E REFORÇA O EMPENHO DA PREFEITURA DO RECIFE E DA JUSTIÇA EM PRIORIZAR PROJETOS DE CONSTRUTORAS (RIO AVE, NO CASO) EM DETRIMENTO DA HISTÓRIA DA CIDADE

O que restava do simbólico Edifício Caiçara, que há quase três anos teve a sua demolição suspensa por ordem judicial, está indo ao chão.

A informação e a primeira foto (desta quinta-feira, 07.04) estão na página do grupo Direitos Urbanos aqui no Facebook.

Ana Paula Portella, membro do DU, comentou que, mesmo embargada, a demolição foi adiante. “Havia dois policiais na frente do prédio garantindo a segurança das retroescavadeiras (enquanto rola assalto na cidade toda). Pra gente saber quem é que manda em Pernambuco”, escreveu ela na página.

De fato, proteção policial a bens e a iniciativas dos poderosos e de empresas privadas em detrimento da segurança pública é um triste indicativo das prioridades da cidade.

As três últimas fotos são de janeiro deste ano e mostram o prédio pela metade – e, ao se comparar estas com a primeira se conclui que a informação inicial, de que a ação de hoje era só para remover entulho, não procede. Na segunda imagem (UFPE) se vê o edifício inteiro.

Era beleza em forma de prédio, que, mesmo tombado por órgãos públicos ligados à preservação do patrimônio arquitetônico, sucumbiu à ganância das construtoras e aos interesses nem tão claros dos gestoras municipais.

No post de abril de 2016 o Antes que suma lembrou ainda:

Em 03 de janeiro, fiz este post:
AVENIDA BOA VIAGEM
CAIÇARA VAI SE TRANSFORMAR EM SÍMBOLO DE RESISTÊNCIA OU CONFIRMARÁ A SINA DE MAIS UMA VÍTIMA DAS CONSTRUTORAS?

Construído em estilo neocolonial no início dos anos 1940, o Edifício Caiçara entra em 2016 pela metade, abandonado e aguardando a decisão que pode transformá-lo de vez num símbolo da resistência contra o poderio econômico e político das construtoras ou em mais uma vítima da ganância que engole a história e mata documentos arquitetônicos.

Em julho de 2015 o pequeno prédio situado na Avenida Boa Viagem, no Pina, teve a reconstrução determinada obrigada pela Justiça.

A construtora Rio Ave, dona do imóvel, que já destruíra a metade da edificação, recorreu para tirar o prédio de vez do mapa e abrir espaço para arranha-céus de design padronizado.

A ordem e extinguir qualquer indício de identidade e dar aos bairros do Recife a mesma imagem de “concreto + espelho” de bairros de Curitiba, São Paulo, Ribeirão Preto e por aí vai…

Enquanto a decisão não chega, o Caiçara segue se deteriorando, com as “vísceras” expostas e servindo de exemplo do que não deve ser feito.

Relembre a história da triste sina do Caiçara (informações do G1):

Construído no estilo neocolonial no início dos anos 1940, o Caiçara está situado na beira-mar do bairro do Pina. A estrutura, de dois andares e seis apartamentos, é uma das mais antigas da região, uma das mais valorizadas da capital pernambucana. Pelo menos duas ações judiciais questionam o plano imobiliário que a construtora Rio Ave, proprietária do terreno, planeja para o local.

A construtora chegou a iniciar a demolição o imóvel, mas foi impedida de continuar após a obra ser embargada pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Na época, grupos se uniram e fizeram protestos para pedir a proteção do prédio.

Em 2013, o Conselho Estadual de Cultural negou o tombamento do prédio, alegando que “faltam pressupostos consagradores à medida”. Já em 2014, o Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) da Prefeitura do Recife também decidiu não incluir o edifício na lista de Imóveis Especiais de Preservação (IEPs).

Na época, a Fundarpe informou que “só irá se manifestar quanto ao cancelamento do processo de tombamento do Caiçara que, por sua vez, anula o embargo à demolição, após passado o prazo de recurso e houver a decisão definitiva da Justiça quanto ao caso do edifício”.

Bom, como se vê, em 2015 um juiz ainda determinou a reconstrução do Caiçara, mas em 2016 a construtora conseguiu se livrar da obrigação de reconstruir e ainda ganhou o direito de concluir a demolição.

O Caiçara tinha três pisos revestidos com pastilhas preto-e-branco e verde. Os  apartamentos eram voltados para a praia e dispunham de janelões permitiam que a construção dialogasse com a rua.

Os traços neocolonialistas dividiam a atenção com uma “torre” central que abrigava as escadas e “dividia” o prédio em duas partes iguais.

Veja fotos da época da demolição suspensa e da “conclusão” da derrubada: