Antes que Suma

Em outros locais, história dá lucro ao turismo. No Recife, se cobre com cimento

Por Jota | 8 de maio de 2017

AO INVÉS DE COBRIR COM CIMENTO, QUE TAL “EXPOR” TRILHOS DE BONDE DO RECIFE ANTIGO COMO ATRAÇÃO TURÍSTICA NO “BULEVAR” DA RIO BRANCO?

Antigos trilhos de bondes que estavam cobertos pelo asfalto na Avenida Rio Branco, no Bairro do Recife, reapareceram com as obras do tal bulevar previsto há quase quatro anos para a via.

A “linha férrea” pode ser vista juntamente com o antigo calçamento de pedras que também tinha sido sepultado pelo asfalto.

Acontece que, pelo que se observa no trecho em que os trabalhos estão avançados, tudo está sendo coberto de novo. E, desta vez, por placas de cimento.

Como a obra está em andamento, não seria possível rever esta decisão? Afinal, os trilhos contam parte da história do bairro e, quem sabe, poderiam contribuir pro clima de bulevar que querem dar à Rio Branco…

Além disso, pelo que foi divulgado pela prefeitura no lançamento do projeto, a ideia é dotar o Bairro do Recife de mais um “equipamento” de atração turística.

Portanto, não seria razoável valorizar o turismo de uma área histórica a partir da preservação da história?

Fiz esta postagem aí acima, em itálico, na minha página pessoal do Facebook no dia 1º de Maio. A informação causou indignação em muita gente, leigas e especialistas.

A publicação acabou pautando a imprensa, que ouviu dirigente da Secretaria de Turismo do Estado.

Resolvi escrever sobre o tema aqui no Antes que suma para jogar luz sobre aquilo que muitos dos que leram no Face consideram um equívoco do poder público.

O representante da secretaria, que assumiu a obras após a Prefeitura do Recife passar três anos sem conseguir executar um metro do projeto, revelou que tudo está sendo feito às claras e que não houve contestação quando o projeto foi apresentado.

E acrescentou que tudo está dentro do “cronograma” e que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) avalizou o traçado planejado.

Argumentos técnicos apresentados sobre o sepultamento consideraram que outras vias da cidade possuem trilhos e que estes estão cobertos, exigindo uma elevada camada de asfalto.

Também se falou que a presença de trilhos é um perigo para a circulação de bicicletas.

E houve a lembrança de uma eventual dificuldade de nivelamento da rua para expor os trilhos.

Desconheço o projeto, mas pela determinação do representante da Secretaria de Turismo, virá por aí, mais uma pista com ares de “shopping outdoor”, como já se vê ao longo dos armazéns do Porto, transformados em empreendimentos gentrificados, limpinhos e desconectados do conjunto arquitetônico do bairro.

O curioso é que ao se propor a transformar a Rio Branco num bulevar, prefeitura e secretaria estadual de Turismo desconsideram  que a via está situada numa área histórica, carregada de memórias de um tempo em que as cidades brasileiras se afrancesaram e que muitos dos boulevard originais ficavam justamente em ruas por onde circulavam bondes.

O recobrimento dos trilhos, na minha visão de leigo, soa como uma contradição, uma afronta à história do Recife e ao caráter “turístico” do projeto. Mesmo sem conhecimento técnico e acadêmico, pode se concluir que a falta de diálogo com o casario, com o passado, empobrece a proposta.

Sobre os argumentos técnicos surgidos no debate, é bom lembrar que outras ruas que possuem trilhos cobertos na cidade não são alvo de projeto de “bulevarização”, portanto não deveriam será usadas para justificar a necessidade de sepultar os antigos “caminhos” dos bondes.

Ao se propor a fazer um bulevar, esperava-se que a memória da cidade seria valorizada e não cimentada.

Sobre o perigo dos trilhos para ciclistas, me abstenho…

No que diz respeito ao eventual nivelamento da rua para ajustar o projeto aos trilhos, uma situação vista a poucos metros da Rio Branco mostra que os “caminhos de ferro” podem ser expostos sem tantos contratempos.

A Rua do Bom Jesus(foto na galeria) é exemplo de que trilhos convivem bem com carros, pedestres, feirinhas e carnavais. E com ciclistas.

O emperrado bulevar da Rio Branco está nascendo com defeitos – volto a insistir, na minha visão de leigo curioso. O principal deles é o desrespeito à história do local onde está sendo feito.

Em outras cidades e países, escava-se para se encontrar e expor elementos testemunhas da passagem do tempo e da formação da cultura e da memória. Aqui, o poder público enterra e cobre esses elementos com cimento. E, claro, ainda se vangloria.

Para ver parte malha dos bondes preservada atualmente no Recife Antigo, clique AQUI (Google maps, sugestão de Javier Martinez, autor da foto dos trilhos na Rua do Bom Jesus)

AQUI, pode-se ver foto-relíquia da Rio Branco, com bondes (acervo da Fundaj).

Mais sobre a presença dos bondes no Recife, clique AQUI (blogln) e AQUI (Fundaj).