Antes que Suma

Na casa-galeria de Germana e Rinaldo o lema é “pra preservar, é preciso ocupar”

Por Jota | 26 de março de 2017

Para preservar, é preciso ocupar. A frase é repetida por Germana Acioly sempre que se fala na necessidade de salvar o patrimônio arquitetônico e histórico do centro do Recife.

Ela tem razão e fala com autoridade.

Desde 2012, Germana, jornalista, musicista e assessora parlamentar, mora numa casa secular na Rua da Glória.

O imóvel foi adquirido em 2003 para abrigar o ateliê do marido, o artista plástico Rinaldo.

Acabou virando residência, quando o casal retornou de uma temporada em Brasília e os preços de imóveis no Recife, impulsionados pelo combo “Copa do Mundo, refinaria e Pernambuco em crescimento chinês”, foram à estratosfera.

Após reformas e ajustes, Germana, Rinaldo e os dois filhos, “ocuparam” a casa e desde então provam que para preservar imóveis antigos é preciso dar funcionalidade e torná-los úteis.

Logo que foi adquirida, a casa começou a ser preparada para se tornar habitável. Primeiro foi necessário paciência para que moradores que a tinham invadido desocupassem as muitas “residências” instaladas nos cômodos.

Superada esta etapa, foram iniciados serviços de recuperação de teto, paredes e sistemas hidráulico e elétricos e criadas soluções que assegurassem iluminação e circulação de ar — a arquitetura colonial possibilita que no interior da casa a temperatura se mantenha sempre abaixo do calor infernal do Recife.

O grande pé de direito permitiu a construção de um primeiro andar, onde estão quarto, banheiro, sala de TV e um terraço que permite uma visão linda da rua e ainda comporta jardim e horta.

O pequeno quintal também foi adequado às necessidades da família, ganhando, inclusive, um pé de pau-brasil que hoje dá sombra e embeleza o ambiente.

O quintal, aliás, guardou surpresas que acabaram por revelar hábitos do povo recifense de séculos atrás.

Quando se começou a revolver o terreno foi encontrado um buraco onde antigos moradores, sem dispor de serviço de coleta, depositavam o lixo que produziam.

Muitos objetos, a exemplos de utensílios domésticos e frascos de remédios, foram “resgatados” e hoje decoram e ajudam a contar a história da construção.

O imóvel, como muitos da rua, foi moradia de famílias judias que, fugidas da Europa durante a ocupação holandesa, fizeram de Pernambuco seu novo lar.

Até um cemitério este povo instalou naquela área, mais precisamente onde hoje está construído o Convento Nossa Senhora da Glória.

Esta e muitas história estão contadas AQUI em texto da Fundação Joaquim Nabuco sobre o bairro dos Coelhos.

Como se observa, a exemplo de tantas outras do centro do Recife, a Rua da Glória guarda histórias preciosas da cidade.

Nas suas casas e sobrados estão digitais de como as pessoas moravam, se relacionavam, interagiam e se inseriam na vida urbana, enfim, de como viviam e elaboravam a cultura da capital de Pernambuco.

Quando Germana afirma que só ocupando e dando sentido é possível preservar imóveis antigos está falando a partir da rica experiência que é viver no centro.

Depois que a família se mudou para a Rua da Glória, algumas casas ganharam moradores e eventos culturais vez por outra movimentam a área.

Rinaldo instalou seu ateliê num imóvel em frente, segue quebrando tabus e demonstrando que o centro é viável e que, em vez de abandono, merece atenção e valorização.

Em suma, o que se vê na casa de Germana e Rinaldo é a prova de que construções seculares que contam a nossa história e formam a nossa memória podem ser habitadas, abrigar empreendimentos de segmentos diversos e ser ajustadas às necessidades atuais. Isso tudo sem que haja prejuízo para a identidade.

Que o poder público assuma seu papel de indutor de políticas que incentivem a preservação e a possibilidade de lucro dos proprietários.

Embora muitos imóveis já estejam no chão ou totalmente agredidos e transformados, há ainda um grande acervo em pé e carente de recuperação. Ocupar, dar utilidade e vida a esses imóveis é a receita.

Antes que suma registrou não só cômodos e elementos arquitetônicos como também as sensacionais obras de Rinaldo que estão espalhadas por toda a construção.

O passeio pelo interior da casa-galeria é o segundo post da série Por Dentro. Relembre, abaixo, a primeira publicação:

“Invadimos” o incrível e bem preservado casarão da Gestos, na Rua dos Médicis 

OBS: A casa pode ser visitada durante jantares que Germana prepara sob reserva em edições do evento Segredo culinária. O ateliê é aberto a visitas e nele são oferecidos cursos de desenho e pintura. Mais informações pelo 99624.8699.

A seguir, as galerias com fotos da nossa visita: