Antes que Suma

“Outro lado” do Oceania, o edifício do filme Aquarius

Por Jota | 26 de março de 2018

O edifício Oceania talvez seja um dos mais conhecidos do Recife. Ganhou projeção no Brasil e fora dele por ser locação e “personagem” central do filme Aquarius, do diretor Kléber Mendonça Filho.

Sua fachada, principalmente o corredor sombreado em que atriz Sônia Braga caminha no cartaz da película, passou a ser bem conhecida.

A face voltada para Avenida Boa Viagem, aliás, marca a passagem do tempo e surge por diversas ao longo do filme.

Mas a bela construção de 1950 possui uma extensa fachada “lateral” que foi pouco explorada no cinema.

Explica-se: o Oceania fica numa esquina, o que significa que o prédio tem também uma “cara” voltada para outra via – no caso, Rua Alcides Carneiro Leal.

E este lado “desconhecido” é igualmente singelo e talvez mais rico esteticamente do que a face virada para a praia. Neste segmento o telhado é composto por diferentes águas e os janelões ainda apresentam esquadrias em madeira.

As pequenas portas de acesso aos blocos são também em arco, como a do cartaz de Aquarius. Mas, claro, não contam com o verde do jardim que garante mais poesia a quem observa o Oceania a partir do calçadão da orla.

Em muitas janelas podem ser vistas placas de venda dos apartamentos. O que significa que o prédio segue seu curso no mercado, sobrevivendo e se adaptando à lei da oferta e da procura.

Em outras publicações do Antes que suma destacou-se que o Oceania, assim como o Aquarius da obra de ficção, era um símbolo de resistência na desmemoriada e verticalizada Zona Sul do Recife.

Obviamente, o edifício já viveu dias de risco e não está totalmente livre do perigo de desaparecer, como escreveu Múcio Jucá, professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Pernambuco, na página do Facebook Prédios do Recife (@prediosdorecife), em setembro de 2016:

Localizado na Avenida Boa Viagem, o edifício Oceania representa um dos últimos remanescentes desse tipo arquitetônico de edifícios residenciais multifamiliares de meados do século XX.

O Oceania apresenta características tipológicas de uma fase de transição dos residenciais multifamiliar, neste caso, mais próxima da arquitetura de casas tradicionais do que edifícios construídos nas décadas seguintes.

O conjunto está implantado em “L”, garantindo um amplo pátio interno que configura a relação casa – quintal. A configuração de térreo (recuado) mais dois pavimentos, garante a horizontalidade e proporção mais próxima da residência tradicional. Outra peculiaridade é o uso de coberta em telha cerâmica, com beirais.

Além disso, o edifício foi concebido com afastamento frontal, para os apartamentos voltados para a Avenida Boa Viagem, e afastamento nulo, ou no paramento, para a rua lateral. Este afastamento frontal permite, aos apartamentos térreos, usufruir de jardins típicos de residências, garantindo uma ambiência bastante peculiar.

Em 2003, uma construtora da cidade deu início à compra de apartamentos do edifício, e exerceu forte pressão para que outros proprietários iniciassem processo de negociação. A intenção evidente era a demolição e construção de edifício residencial multifamiliar de tipologia “moderna” e de “maior apelo comercial”.

No entanto, alguns moradores, e mais notoriamente Aronita Rosemblat pensava diferente, e resolveu resistir.

O pedido de tombamento foi elaborado pelo arquiteto Milton Botler em 2003, e devidamente acatado pelo então Presidente da FUNDARPE Paulo Souto Maior. Posteriormente, já em 2013, o Vereador Jayme Asfora requisitou que o edifício fosse enquadrado na Lei 16.284/1997, tornando-se Imóvel Especial de Preservação.

Desde 2014, consta a informação que a construtora desistiu das intenções de demolir o edifício. Ainda assim, o Oceania nunca foi transformado em IEP, e desta forma, a cidade permanece sem garantias reais de sua preservação”.

Relembre posts que enfocaram o Oceania:

Aquarius estreia e estimula debate sobre preservação e memória afetiva

Oceania: o lindo prédio do filme Aquarius é símbolo de resistência na Zona Sul

E mais: publicações que retratam pequenos edifícios que estão em risco e os que sobrevivem na Zona Sul do Recife:

Vazio desde 2015, Edifício Andes tem demolição como destino em Boa Viagem

Quatro andares art déco preservados em plena Navegantes

Após acabar com casas, mercado dizima pequenos prédios