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Solar é documento lindo do século 19 na Fundaj de Casa Forte

Por Jota | 23 de julho de 2018

Texto produzido pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) sobre Casa Forte em 2003 informava o seguinte:

“É um dos bairros mais arborizados do Recife. Ainda conserva alguns antigos casarões, como o prédio “velho” (ex-Hospital Magiot), na Av. 17 de Agosto, 2187, que pertenceu a Francisco Ribeiro Pinto Guimarães e onde funciona hoje a sede da Fundação Joaquim Nabuco e alguns dos seus órgãos como o Museu do Homem do Nordeste e o Laboratório de Pesquisa, Conservação e Restauração de Documentos e Obras de Arte (Laborarte)”.

Texto mais recente destaca que “o  majestoso casarão Solar Francisco Ribeiro Pinto Guimarães é o cartão de boas-vindas da sede da Fundaj”. E prossegue:

“A construção erguida no século XIX conserva grande parte de sua estrutura original e é carregada de histórias dos tempos do comércio açucareiro em Recife, além de ter sido o marco zero de pesquisas do instituto que mais tarde se tornaria a Fundação Joaquim Nabuco”.

Pois é. A ênfase ao chamado solar Francisco Ribeiro Pinto Guimarães – um dos casarões que abrigam a sede da Fundaj – não é exagero. O imóvel é um exemplar fenomenal das construções residenciais dos abastados do século 19. Trata-se de um palacete imponente que chama a atenção de quem passa ou visita a sede da instituição em casa Forte.

O trabalho “Janelas para a História: defendendo e preservando a memória arquitetônica da Fundação Joaquim Nabuco”, de Sônia Machado (de junho de 2009), documenta com dados históricos e rica descrição das linhas arquitetônicas as preciosas construções que foram transformadas em sede da entidade.

Veja o que Sônia escreveu sobre Solar Francisco Ribeiro Pinto Guimarães:

“Solar oitocentista onde se encontra gravado, na frontaria do seu bloco principal, os anos de início (1874) e término (1877) da obra. Pertenceu a Francisco Ribeiro Pinto Guimarães, um dos muitos aristocratas do açúcar que o Recife conheceu.

Teve sua concepção composta por quatro edificações distintas e desviada dos padrões das edificações suburbanas recifenses da época, que até então eram basicamente constituídas por um casarão central no terreno com pequenos anexos onde funcionavam as dependências de serviços.

O Solar do Caldereiro, como ficou conhecido, se instalou nos limites do lote, conformando um grande pátio em forma de “U” voltado para a Estrada do Monteiro, hoje Avenida 17 de Agosto, rodeado de plantas tropicais.

Observando o estilo construtivo do conjunto arquitetônico, que utilizou elementos da arquitetura greco-romana, pode-se afirmar que a arquitetura classicista está presente, se destacando principalmente no corpo central com as colunas gêmeas, sendo toscana no pavimento térreo e compósita no andar superior.

Procurando imprimir a condição social dos antigos proprietários, a fachada do conjunto e notadamente do bloco principal recebeu tratamento requintado: paredes revestidas com azulejos portugueses; mármore de carrara; cristal veneziano nas esquadrias de madeira de lei; estatuária; pináculos e vidros coloridos que foram, em sua maioria, saqueados.

Embora a sua composição seja de influências neoclássicas, alguns de seus ornamentos, como o arco ogival da porta do balcão, já mostrava a nova estética que estava por vir, o ecletismo.

A edificação que mais se distingue é a do bloco principal. Possui dois pavimentos e um porão alto, hoje transformado em galeria de arte. Uma grande escadaria dá acesso ao terraço descoberto do pavimento térreo do palacete, que serve de acesso a um vestíbulo central com dois salões laterais, repetindo tal configuração no pavimento superior.

Os dois salões laterais do térreo possuem no piso um elaborado desenho de “parquet” com madeiras encomendadas do Pará e um forro bastante delicado e ricamente ornamentado por estucadores franceses.

Quanto ao pavimento superior, cujo acesso é por meio de magnífica escada de ferro com corrimão iniciado por dois castiçais modelo século XVII, os salões apresentam ornamentação mais simples, porém não menos rica. No vestíbulo desse pavimento, pode-se observar ainda uma clarabóia fechada com vidros venezianos.

O terreno em frente ao conjunto arquitetônico abrigava um jardim de plantas exóticas, sendo possível, ainda hoje, encontrar um pavilhão destacado, à direita do corpo do casarão, que serviu de banheiro residencial.

O edifício, que dentre outras funcionalidades já abrigou uma clínica veterinária e o Hospital Magitot, deu lugar à sede do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais – IJNPS, em 1953, quando sofreu processo de restauração pela Secretaria de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, conservando sua originalidade.

Em 1965, instalou-se, no seu bloco principal, o Museu Antropológico do IJNPS, cujo acervo se encontra atualmente no Museu do Homem do Nordeste. Somente em 1974, os salões do bloco principal foram ocupados pelo Museu Joaquim Nabuco, atualmente Memorial Joaquim Nabuco.

O edifício, por tais características, é registrado pela Lei nº 15.199/89, de 24 de janeiro de 1996, da Prefeitura da Cidade do Recife, que o define como Imóvel Especial de Preservação (IEP) sob o nº 395, conferindo-lhe condição de preservação que não permite demolição, descaracterização e alteração da volumetria”.

APELIDO – No site da Fundaj fica-se sabendo que o casarão é chamado informalmente de “Chico Macaco” e acrescenta: “reza a lenda que o filho do Francisco Ribeiro morou no casarão e acabou enlouquecendo, passando a alimentar-se exclusivamente de banana. Ele ficava em uma das salas do anexo e não saía de lá em hipótese alguma, fazendo com que os empregados levassem banana para ele comer”.

Com tanta beleza, história e até lendas em torno de si, o solar merece ser apreciado. Quando à Fundaj de Casa Forte, onde estão o Museu do Homem do Nordeste e o Cinema do Museu, não deixe de dar uma olhadinha no edifício.

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OBS: texto originalmengte publicado em 2016 apenas no Facebook.