Antes que Suma

Pequenos, pouco notáveis, mas com importância social na migração de casas para prédios

Por Jota | 6 de janeiro de 2017

Antes do predomínio de edifícios gigantes, padronizados e desvinculados das ruas, da cidade e quem nela circula, prédios menores, geralmente desprovidos de recursos estéticos, ocuparam o lugar de casas e sobrados no processo de transformação do “residir” nas grandes cidades brasileiras.

Na segunda metade do século passado, esse processo se acelerou e, devido à demanda que surgia entre as classes de menor poder aquisitivo a arquitetura tratou de oferecer uma solução prática, rápida, de fácil construção.

O racionalismo europeu foi, então, adaptado aos trópicos e uma série de edifícios de gabarito que não vão além do quarto andar começou a surgir.

Sem adornos, sisudos e um tanto quanto despidos de elementos embelezadores, nem por isso esses filhos da arquitetura moderna deixam de fazer parte da memória da cidade, exatamente no início da “migração” de casas para apartamentos.

O Antes que suma reuniu quatro exemplares destes pequenos nem tão notáveis para tratar da importância deste estilo. Nas imagens estão construções situadas em bairros distintos.

O primeiro (de acordo com a ordem de apresentação na galeria de fotos) é o Edifício Marbasto, localizado na Rua Arnóbio Marques, em Santo Amaro, próximo ao Hospital Oswaldo Cruz.

O segundo é chamado de Edifício Real e está situado na Rua da Paz, continuação da Imperial, no bairro de Afogados.

Erguido na Rua Berlamínio Carneiro, uma paralela à Real da Torre, no bairro da Torre, está o Edificio Professor Félix Paiva.

Por fim, o quarto integrante do “elenco” fica na esquina da Rua do Paissandu com a Rua Mário Domingues, no Paissandu, nas cercanias da Praça Chora Menino.

Os três primeiros, de acordo com arquiteto urbanista e professor da Faculdade Esuda Marcos Assis, são construções tipicamente racionalista (ou modernos). Já e quarto e último é protomodernista.

“São variações (os três primeiros) bem populares da arquitetura moderna mesmo”, diz. De acordo com Assis, estes apresentam um racionalismo puro europeu, sem adornos, construídos com rapidez para atingir a população de baixa renda.

O professor observa que, mesmo sem adornos, destacam-se em alguns o nome escrito em alto relevo e, principalmente, a presença cobogós em varadas e fachadas.

Segundo Assis, a popularização do cobogó é uma “herança” da valorização que o arquiteto português Delfim Amorim deu ao elemento. Antes dele, o cobogó era tido como algo menor e pouco utilizado.

O português, cuja escola arquitetônica tem influencia árabe – consequência da dominação moura na Península Ibérica – viu no artefato a mesma funcionalidade de arabescos que asseguravam a passagem ventilação e luz, recurso fundamental em regiões quentes, como é o caso de Pernambuco.

O arquiteto salienta ainda que os três primeiros são edificações que certamente surgiram dos anos 1960 para cá. Têm linhas simples e, no máximo, quatro andares (além disso, exige-se elevador).

Por sua vez, o quarto prédio, o da Paissandu, apresenta elmentos protomodernistas, ou seja, é de um período/estilo que precede o modernismo ou racionalismo.

“É o mesmo tipo de arquitetura da Avenida Guararapes”, afirma Marcos Assis. Erguido nos anos 1940, o conjunto da Guararapes foi obra do período da intervenção de Agamenon Magalhães e do governo de Novaes Filho na Prefeitura do Recife.

“As varandas salientes, as janelas (ao estilo) Le Corbusier, quadradas, com poucos adornos, são marcas do período anterior ao modernismo”.

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