Antes que Suma

Entrevista com Stela Barthel: presença (e desvalorização) do art déco no Recife

Por Jota | 3 de junho de 2018

Entrevista publicada em 2015, quando o Antes que suma só existia no Facebook. Agora, três anos depois, permanece atual e é republicada no site: 

Quando, no dia 15 de maio (de 2015), o Antes que suma publicou postagem tratando da decadência do prédio Pedro Hygino, a arquiteta Stela Barthel se manifestou e se revelou profunda conhecedora da presença art déco no Recife.

Nada mais natural para quem acabara de defender, na Universidade Federal de Pernambuco (em 27 de fevereiro de 2015), a dissertação de mestrado em Arqueologia da Arquitetura intitulada “Vestígios do art déco na cidade do Recife (1919-1961): abordagem arqueológica de um estilo arquitetônico”.

Obviamente, o trabalho de Stela, que é professora das faculdades Esuda e Damas – atuou também na extinta Faupe – tem clara afinidade com a proposta do Antes que suma. Assim sendo, decidimos ouvir a arquiteta sobre a tese e o patrimônio art déco recifense.

Vamos à entrevista. Boa leitura:

ANTES QUE SUMA – O estilo art déco é um entre tantos que estão desaparecendo do Recife por conta da descontrolada verticalização da cidade. O que lhe fez decidir concentrar seu trabalho no art déco?

STELA BARTHEL – Sou professora de arquitetura na área de teoria e história. Passava trabalho sobre o art déco para os alunos e tinha muito material. Queria dar um destino a isso para que não se perdesse.

AQS – Muito do patrimônio art déco da cidade desapareceu ou está comprometido pela falta de preservação. Por que no Recife a riqueza arquitetônica é tão desvalorizada? E mais: como a cidade poderia ganhar ao valorizar a variedade de estilos que tem (há cidades, como Barcelona por exemplo, onde a arquitetura atrai gente do mundo inteiro?

SB – As pessoas não conhecem o art déco por isso ele não é valorizado.Temos edifícios lindos, semelhantes aos de Miami Beach, que é o primeiro distrito art déco do mundo a ser reconhecido como tal. A diferença é que não temos proteção para os nossos.

AQS – O art déco surgiu quando e onde e como chegou ao Recife? Foi associado a algum momento ou ciclo histórico ou econômico relevante no estado ou no país?

SB – O art déco surgiu na Europa, França e Inglaterra principalmente, no período entre-guerras (1918-1939). Chegou ao Recife como chegou ao Rio de Janeiro, pelas mãos de pessoas que vinham da Europa e dos Estados Unidos para cá, sendo que a maior parte dos transatlânticos da época, que faziam a linha regular para o Rio (o Normandie, o Île de France, o L’ Atlantique), paravam no porto do Recife. No Rio de Janeiro, estes navios podiam ser frequentados pela elite carioca, que ia aos bares, aos cassinos, às boutiques e se encantavam com a ambientação art déco. Liam os jornais e as revistas que estavam a bordo. O Recife também era pouso para o Zeppelin. Foi por influência e contato com estrangeiros que ele chegou. Está associado, no Brasil, ao chamado Estado Novo, até porque Getúlio Vargas construiu muitos edifícios no Rio, ministérios do trabalho, da guerra, edifícios públicos, que eram art déco.

AQS – Quais as características mais evidentes do estilo? Como um leigo pode saber que está diante de um imóvel desse estilo?

SB – Bem, se você for para a literatura, a maioria dos autores classifica o art déco em três ou cinco variantes. Os autores mais lidos são Conde e Almada (in CZAJKOWISKI, 2000), Unes (2001) e Campos (2003) e Farias (2011). Conde e Almada estudaram o Rio de Janeiro. Unes estudou Goiânia, que tem 22 edifícios Art Déco tombados pelo IPHAN. Campos estudou São Paulo e Farias estudou João Pessoa. Tem ainda a Lia Rossi que estudou Campina Grande. na Paraíba. Cada um classifica de um jeito, mas todos concordam com a classificação inicial de Conde e Almada para a Afrancesada, Escalonada e Streamline. Afrancesada é uma transição do estilo anterior, o Ecletismo, para o Art Déco propriamente dito. Usa elementos como colunas, frontões curvos ou triangulares, relevos e elementos geométricos nos ornamentos. A Escalonada usa platibandas como se fossem escadas e planos superpostos e, no Brasil, ainda há contributos da sub-variante Marajoara, com temática indígena nos ornamentos. Os ornamentos da Escalonada são estilizações da fauna e da flora. A Streamline tem balcões arredondados, mastros, torres, janelas em forma de escotilha, guarda-corpos em metal, como convés de navio… é náutica na essência. E formas arredondadas. As duas variantes que encontrei que não se enquadram nestas são a Mestiça, que usa os elementos comuns a todas (balcões, marquises, pestanas, platibandas em concreto armado), sem se vincularem a nenhuma variante e a Híbrida, que mistura duas e até as três variantes. Este é um estudo de caso feito na cidade do Recife. A mestiça e a híbrida perfaziam mais de 30% dos edifícios que eu classifiquei como Art Déco na pesquisa. Estes edifícios (683) se concentram em mais de 50% nos bairros centrais, mais antigos, mas há em todas as regiões da cidade. Dos 94 bairros, encontrei em 40.

AQS – E onde, no Recife, há exemplares que ainda valem a pena ser vistos?

SB – O Cassino Americano, o Clube Náutico Capibaribe, a residência da Rua da Hora, esquina com a Rosa e Silva, todos Streamline. A fábrica da Macaxeira, que é Escalonada. Gosto muito de uma residência Escalonada na Torre, na Conde de Irajá, 444. Está à venda. Gosto muito de uma residência Híbrida na Madalena, Rua Real da Torre, 407. O edifício Ouro Branco (antigo Gersa), é lindo, é Híbrido, mistura as 3 variantes. O edifício São Jorge é mestiço. Gosto muito da antiga Secretaria de Educação na Rua Siqueira Campos, 504, que era originalmente um quartel e hoje é da Polícia. O quartel e o hospital do Exército na Rua do Hospício. O primeiro Escalonado e o segundo, Streamline. Há uma residência linda no Derby, na Rua Feliciano Gomes, 134, Streamline.

Relembre, abaixo, do post sobre o Edifício Pedro Hygino. Foi esta publicação que levou a professora a se manifestar e a nos conceder a entrevista:

“RUÍNA” ART DÉCO NA CONDE DA BOA VISTA. EM MIAMI (EUA), PRÉDIOS SIMILARES SÃO SÍMBOLOS DA CIDADE 

Revejam ainda outros posts que fazem referência a art déco pernambucana:

Quatro andares art déco preservados em plena Navegantes

Pequeno resistente na esquina da Manoel Borba com Rua dos Médicis

Edifício Ruth resiste numa região do Recife que, embora histórica, é abandonada