Antes que Suma

São casas e casarões e na fachada escrito, em cima, que é uma “vila”

Por Jota | 23 de abril de 2018

Geralmente associadas a moradias de trabalhadores de fábricas, com características semelhantes entre elas (às vezes exatamente iguais) e construídas lado a lado, as casas de vilas vêm desaparecendo das cidades.

O avanço das construtoras sobre bairros que entre o final do século 19 e o século 20 cresceram em torno de unidades industriais, tem dizimado muitas delas.

Mas há resistências. Em Pernambuco ainda existem exemplares em Paulista, no Cabo de Santo Agostinho e no Recife, especificamente no bairro da Torre.

Todavia, para além da definição de vila ou das vilas propriamente ditas, observa-se a ocorrência do emprego da designação de vila em residências de diversos estilos, das mais simples às suntuosas.

No Recife, muitos exemplares ainda podem sem encontrados em diferentes regiões da cidade.

Não consegui descobri exatamente o que explica a existência desse costume.

Mas, sabendo-se que no passado pais colocavam nomes de filhos nas fachadas das moradias, pode-se supor que o hábito deve ter origem nessa homenagem/declaração de amor de cunho familiar.

Grande parte faz referência a nomes femininos: há Alzira, Martinha, Persília, Deolinda, Nocinha, Ritinha e por aí vai. Provavelmente, mães, avós, esposas e filhas eram alvo da homenagem.

Nomes de homens são mais raros, mas existem. Encontramos Villa Edgard, na Rua São Bento, em Olinda. Há também homenagens a santos. Na Rua Dona Anunciada, nas Graças, está a Villa Santo Antônio.

Na maioria dos imóveis a palavra vila aparece com a letra L em dobro e não necessariamente são vilas. Pelo contrário. São casas únicas.

A duplicação do L, fato que transforma a palavra em espanhol, deve ter também ter uma justificativa. Quem sabe não era garantia de status?

Quem sabe o emprego de “villa” não era uma tentativa de “diferenciar” e distanciar a casa do significado original de vila?

Talvez o recurso teria o mesmo sentido do uso exagero de termos em inglês que se faz hoje na construção civil, sempre associados à sofisticação, modernidade e conforto.

Percorrendo ruas dos Aflitos, Graças, Boa Vista, Madalena, Encruzilhada, Casa Forte e sítios históricos de Olinda e Jaboatão dos Guararapes é possível se deparar com “villas”.

Aproveite para prestar mais atenção. Geralmente são construções charmosas, com riqueza arquitetônica.

Relembre aqui posts relacionados às casas-villas:

Restauro avança e Villa Ritinha começa a atrair eventos de arte

Quem se lembra do casarão do bar De vento em popa? Sumiu. Mas casas vizinhas resistem

Linda Vila Deolinda permanece sob risco na Zona Norte

ADENDO:

Após este post texto ter sido publicado, o leitor Bruno Mendonça me enviou mensagem informando sobre o contato que ele fez com Professor Leonardo Dantas ainda 2015 acerca das “villas” do Recife a partir de uma publicação feita naquele pelo Antes que suma no Facebook. Veja abaixo:

Boa tarde, “Antes que suma”. Posto para você uma troca de mensagens que tive com o Prof. Leonardo Dantas, ocorrida em 20/07/2015, a respeito das Vilas ou Villas espalhadas por nossa cidade:
Leitor Das Doze
 

“Boa tarde, Profº Lenardo.

O senhor poderia explicar ou indicar alguma leitura a respeito das “vilas” aqui em Recife?

Em vários bairros do suburbio já observei que no alto de determinadas casas está o nome: “Vila de ….” .
Vi isso nos bairros da Torre, Madalena, Várzea, Apipucos, Aflitos…

Agora a pouco, no grupo “Antes que Suma”, postaram fotos de uma casa onde no alto está escrito “Vila Deolinda” e o ano. https://www.facebook.com/antesquesuma/posts/1510533495903646

Revendo algumas anotações, percebi que já havia listado o nome de algumas “vilas”: Villa São José (Várzea), Villa Soberana (Apipucos) e Villa Sucesso (Torre)

Grande abraço.”
Leitor Das Doze
 Prof. Leonardo Dantas: “Existia na Torre um escritor Hermógenes Vianna, pai do médico Manuel Geraldo Vianna, que denominava as casas que possuía (eram muitas) com o título de Villa Sucesso, Villa Vitória e assim se seguia. Um contato com o médico Geraldo Vianna por certo vai esclarecer a sua curiosidade.”
Leitor Das Doze
 Espero ter ajudado a vocês. Aprecio muito as postagens do grupo “Antes que suma”, é um ótimo trabalho de manutenção da memória da cidade.
Bom, pelas informações repassadas por Dantas a Bruno, fica-se sabendo que substantivos (“positivos”) também inspiravam nomes das “vilas”. Obrigado, Bruno Mendonça.