Antes que Suma

Casas geminadas serão demolidas e rua do Cordeiro faz última festa de São João

Por Jota | 24 de junho de 2017

Estas são as bandeirolas e este é o céu da Rua Paes Cabral, no bairro do Cordeiro, zona oeste do Recife.

Neste ano a rua promoveu seu último São João dentro do modelo que segue há décadas. É que 12 casas do lado direito, pertencentes a um mesmo dono, serão demolidas.

No lugar, serão levantadas torres e a rua já não será a mesma em 2018. Nem as bandeirolas nem a festa de fogueira, trio de zabumba, triângulo e sanfona…

O que hoje é casa e jardim será prédio, muro e guarita. A vida será outra, muito provavelmente sem céu colorido, sem festa e muito pouco horizonte.

A história chegou por meio de uma sugestão de pauta da leitora Cláudia Asevêdo.

Ela passou a informação e pediu que fosse feita uma publicação “sobre futuras demolições previstas para o mês de agosto desse ano, em uma vila de casa situada na Rua Paes Cabral no bairro do Cordeiro”.

“Serão várias casas de arquitetura antiga que começam da Avenida Caxangá e vão até a metade da rua. Essa demolição será por conta da construção de um prédio de 15 andar”, escreveu.

As casas ficam entre a Avenida Caxangá e a Rua Desembargador Manoel de Sá Pereira. São seis duplas geminadas, lembrando, como se referiu a leitora, uma vila.

Hoje, uma das duplas aparece desfeita, porque uma casas foi transformada em pequeno prédio de térreo e primeiro andar.

Na esquina com a Caxangá edificações que abrigam estabelecimentos comerciais – no lugar de casas derrubadas no passado – também estão incluídas no pacote e desaparecerão.

Todos os imóveis pertencem a uma mesma família. Com a morte da matriarca, os herdeiros decidiram vender todo o conjunto para construtoras.

Os inquilinos foram comunicados por carta que deviam deixar suas casas. Não houve proposta de venda para quem viveu ali, 15 ou 20 anos.

Dez deles já esvaziaram os imóveis. Um dois dois moradores que resiste e já acionou advogado para tentar comprar a casa, diz que foi desrespeitado, questiona e discorda do modo como os donos vêm agindo.

“Não houve diálogo. Muitas pessoas saíram com medo de briga na Justiça, tristes e com suas histórias desfeitas. Agora, como contratei advogado, já querem conversar”, conta.

As casas têm características de construções residenciais das primeiras décadas do século XX. A exceção fica por conta do par localizado na esquina Desembargador Manoel de Sá Pereira, que aparenta ser mais recente. Uma outra teve o teto trocado.

Todas possuem varanda, quintal amplo, jardim e dialogam com a rua.

Uma das casas da dupla mais próxima da Caxangá, já começou a ser demolida. A grade da porta principal (da varanda) já está sendo retirada.

Para quem reside na rua e mesmo para quem apenas passa pelo local, o cenário de casas vazias é desolador.

Tem vizinho que aprova a demolição, mas outros lamentam e sabem que a rua perderá identidade e em humanização.

Os que residem nas casas – igualmente lindas – do lado direito da Paes Cabral perderão a vista, a possibilidade de convivência com quem mora em frente e o verde dos jardins e quintais. Serão “engolidas” por muros, grades e guaritas.

No lugar de construções simpáticas, cheias de história e personalidade terão, do outro lado, arranha-céus que podem existir em qualquer lugar de qualquer cidade grande do país.

Em vez, festa de São João comunitária, conversa no portão e troca de ideias com quem mora na frente, terão mais carros, barulho, esgoto estourado e queda na conexão entre moradia e a rua.

Ou seja, perderão identidade, vizinhos, sossego, céus e horizontes em mais uma ação devastadora resultante da soma interesse financeiro de proprietários (que não se contentam com aluguel) e ganância do mercado.

A Paes Cabral, que já foi escolhida pela Prefeitura do Recife como integrante do Projeto Lazer na Rua deixará de ser como é. Será menos a rua Paes Cabral e passará a ser mais uma rua, uma rua qualquer.

Saiba mais sobre o bairro do Cordeiro, AQUI (Fundação Joaquim Nabuco)

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