Antes que Suma

Surubim: luta e abaixo-assinado pela preservação de prédio da Usina Farias (algodão)

Por Jota | 14 de setembro de 2017
Recebemos da leitora Thalita Rodrigues a seguinte mensagem: “sou uma seguidora da página e gostaria de pedir um grande favor a vocês que fazem o Antes que SumaMoro na cidade de Surubim e eu, junto com algumas pessoas, estamos tentando fazer com que o antigo prédio da usina de beneficiamento de algodão seja tombado e revitalizado. O prédio é uma das únicas edificações histórias aqui na cidade que ainda está de pé. Gostaria de pedir que divulgassem o abaixo assinado que estamos fazendo“.
Pois aqui está. O Antes que suma aplaude e se associa à iniciativa de Thalita e da população de Surubim, município do Agreste, a 123 quilômetros do Recife.
A mobilização da leitora diz respeito ao conjunto arquitetônico da Usina Farias. Segundo informações publicadas em site locais as construções estão ameaçadas de desaparecer para dar lugar a um loteamento já aprovado pelo município.
O processo de demolição já foi inclusive iniciado em julho, mas está suspenso por conta decisão judicial. Por isso tudo é que o tombamento é urgente. Foi criado inclusive um abaixo-assinado para em favor da ideia. Assine!:

ABAIXO-ASSINADO EM FAVOR DO TOMBAMENTO DA USINA FARIAS, PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL MATERIAL E IMATERIAL, EDIÇÃO DE LEI (S) QUE PROTEJA TODO PATRIMÔNIO HISTÓRICO (PAISAGISMO ARQUITETÔNICO) CULTURAL MATERIAL E IMATERIAL

A justificativa do abaixo-assinado detalha que o conjunto, incluindo o pátio da usina (como é conhecido) encontra-se situados no cruzamento das Avenidas São Sebastião, Agamenon Magalhães e Oscar Loureiro, onde, o pátio mencionado funciona como átrio de ligação entre os principais acessos ao centro da cidade.

E vai adiante afirmando que sua localização funcionou como elemento norteador da expansão territorial e, consequentemente, contribuiu para o atual traçado, uma vez que, a partir da sua instalação se sucedeu o aumento da ocupação urbana no município influenciada pelo potencial econômico da atividade algodoeira da Usina Farias.

“Apesar da discreta relevância estética estilística, a edificação possui valor histórico e cultural, tanto por ser o último exemplar de características originais ainda existente na área urbana, quanto pelo valor histórico aplicado em decorrência da atividade algodoeira desta no estado de Pernambuco, tendo sido esta uma das maiores beneficiadoras de algodão do agreste pernambucano, o que lhe garantiu o título de ouro branco”, frisa o documento.

O texto informa que a usina já foi parcialmente demolida e concorre para a demolição total prevista em projeto de loteamento já aprovado pelo município, no entanto, o tombamento da parcela restante em conjunto com o pátio concorre para a manutenção da história e da identidade do povo surubinense, memorando ao destaque desta no panorama algodoeiro Pernambuco.

“A edificação que compreende a Usina possibilita a instalação das mais diversas atividades, podendo abrigar programas sociais do município, assim como, funcionar ainda como berço das artes e das manifestações culturais surubinenses”, destaca.

“O tombamento deste bem além de enriquecer o patrimônio cultural material de nossa cidade, valorizará o terreno do proprietário e contribuirá para desenvolvimento social e econômico, preservará também o nome de uma família tradicional que prestou a essa cidade relevantes serviços, tendo por seus feitos cristalizado nome que até hoje se ecoa aos quatro cantos da cidade”, acrescenta o documento.

“É possível a coexistência entre o novo e o “velho” e muitos sãos os exemplares que comprovam a eficácia desta ação. Por tais razões, solicitamos ao município o tombamento da Usina Farias”, ressalta.

O abaixo-assinado continua: “Aproveitando o ensejo, por ser este desdobramento do objeto em questão, solicitamos também na oportunidade que, sejam inventariadas as edificações de importância histórica, a exemplo dos: casarios e casarões ainda existentes no município, bem como, todo patrimônio histórico material que, guarnecer nossa história e identidade para fins de tombamento”.

E é concluído assim: “Solicitamos ainda que, nossos representantes (executivo e legislativo) se sensibilizem e elaborem lei (s) que protejam nosso paisagismo, arquitetura e todo patrimônio cultural material e imaterial ainda existente. Que se inclua no orçamento do governo (LDO, LOA e PPA) para que haja previsão legal de repasse de verba pública destinada à manutenção, revitalização e custeio em geral de todo patrimônio cultural material e imaterial, uma vez tombados, caso seja necessário”.

Moradores reforçam que a a derrubada do conjunto significará a perda da pouca memória que sobreviveu à modernidade em Surubim.
Um texto publicado no blog Nossa terra Surubim destaca o prejuízo para a história e a cultura do município (VEJA AQUI):

“O processo de construção de nossa história, sempre levou em conta a importância da contribuição da usina de algodão dos Farias para a economia local e regional, e assim, diante da notícia de que teve início hoje (25.07.17) o processo de demolição deste prédio histórico fico a me questionar: como compreender o nosso processo histórico sem este registro?

Como referenciar este marco de nossa história para as gerações futuras? Como explicar que nossa geração permitiu o sepultamento de um registro relevante de nosso processo de crescimento cultural, econômico e histórico?

Diversos são os questionamentos, ao mesmo tempo em que rememoramos outras importantes ações que acabaram por sepultar resquícios de nossa história cultural. Assim ao que nos parece, nosso povo faz pouco caso da memória histórica do município e deste modo, vamos aos poucos, nos tornando um povo sem identidade cultural”.

Assinado por Evandro Barbosa, o texto prossegue relacionando os danos que as demolições já causaram à cidade:

“Há décadas atrás perdemos o Hotel Municipal, que foi repassado para a iniciativa privada e hoje integra o patrimônio do Grupo Cristal. Em tempos não muito remotos, perdemos parte da arquitetura da Rua 15 de Novembro, no processo de construção da Galeria Surubim Center. Agora chegou a vez da nossa conhecidíssima Usina dos Farias”.

A mobilização contra o desaparecimento já colheu inclusive opiniões de especialistas. Além de reforçarem o valor histórico-arquitetônico do conjunto, surgiram projetos para ocupação das edificações.

O site Surubim news apresenta o que pensa a arquiteta, Evelyne Tavares Barbosa (VEJA AQUI). Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Católica e pós-graduada em Engenharia de Segurança do Trabalho pela Universidade Federal de Pernambuco, Evelyne propõe que a área da antiga Usina seja ocupada por conglomerado do Poder Executivo de Surubim.

A motivação que eu encontrei para elaborar esse delineamento aconteceu a partir da necessidade de criar um projeto na minha cidade que representasse para mim orgulho e satisfação em fazê-lo, como também tentar despertar nas pessoas esse orgulho de cultivar a história da cidade através de um projeto de revitalização. A proposta principal é fazer o antigo e o novo conviverem no mesmo espaço. E isso é extremamente possível”, explica a arquiteta.

E ela prossegue afirmando não ser a favor do tombamento total do edifício. “Sou a favor de uma intervenção inteligente, que possibilite ao povo conhecer de perto mais profundamente a nossa história. Mantendo o registro das gerações passadas e propiciando um novo uso. Inúmeros edifícios mundo a fora são exemplos disso. Iniciativas privadas… Proprietários de sítios históricos fazem questão de elaborar projetos de revitalização e intervenções supermodernas, que permitem a cidade contar sua história. E muitos desses edifícios viram orgulho para a população. Um exemplo bem próximo é o Paço Alfândega no Recife Antigo. Tem também o Museu Rodin na Bahia e a fábrica Tacaruna passa por estudos do mesmo gênero”, declarou ao site.

Que a mobilização avance e que a Usina Farias seja ocupada, mas preservada, de modo que a história impregnada no conjunto arquitetônico sobreviva, fortalecendo a identidade de Surubim.

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