Antes que Suma

Ocupar e dar funcionalidade é receita de preservação do Anjo Solto Zona Norte

Por Jota | 20 de setembro de 2016
Uma casa de térreo e primeiro andar construída nos anos 50 com linhas modernistas é o endereço da creperia Anjo Solto na Zona Norte do Recife.
 
A “filial” da creperia que há 20 anos faz sucesso no Pina (Zona Sul) será inaugurada oficialmente nesta terça-feira (20.09).
 
O projeto de adaptação do imóvel ao empreendimento foi cuidadosamente feito para que o desenho original fosse preservado.
 
Tudo foi planejado e executado de modo a confirmar que “casa antiga” não é sinônimo de inutilidade e inviabilidade. Pelo contrário. Ocupar imóveis do “passado” pode conferir charme e ambiente diferenciado a qualquer negócio.
 
Além disso, a atitude agrega valores cada vez mais prestigiados nos dias hoje, tais como preservação da história e respeito à memória.
 
Por isso tudo, a proposta do novo Anjo Solto é muito bem-vinda numa área em que o Recife é cada vez menos Recife.
 
O bairro das Graças – a creperia fica na Esmeraldino Bandeira, 106 – precisa de cada vez mais de iniciativas como esta.
 
Afinal, ocupar, tornar o imóveis antigos úteis e funcionais, é o caminho para a preservação. Em outras palavras, é preciso dar vida às edificações para que elas possam se manter em pé.
 
O projeto de ajuste da casa foi executado pelas arquitetas Ana Luisa Rolim e Julianna Santos, do Coletivo Rt.
 
A fachada com cobogós e varanda no primeiro andar foi realçada com cores fortes e jardim. Internamente, foram necessárias adaptações para instalação de bar, adega, balcão, mesas e cadeiras.
 
Elementos de madeira reforçam a beleza das linhas arquitetônicas internas, a exemplo da escada que dá acesso ao primeiro andar.
 
O jardim interno é uma atração a parte. Nele foram cultivadas plantas que ornamentavam varandas e quintais brasileiros na década de 1950, quando a casa foi erguida.
 
Ou seja, o cenário de passado também está garantido pelo cuidadosa “garimpagem vegetal¨ feita pelo paisagismo.
 
De acordo com Ana Luisa, a casa não é tombada e, mesmo tendo sido alvo de reformas sucessivas que a descaracterizaram, sobretudo seu interior, ainda apresenta características modernistas (início da década de 1950).
 
Por isso tudo, destaca ela, a intenção, desde o início do projeto, foi acentuar a sobrevivência dos elementos daquele período.
 
A casa foi construída para ser moradia, mas já teve outros usos ao longo do tempo, inclusive escola e restaurante (Chez Brigitte, fechado há um ano).
De acordo com a arquiteta, as plantas originais foram alteradas. O projeto de adequação partiu de plantas em nada parecidas com o traçado inicial.
 
“Parece ter havido muito compartimentação dos interiores ao longo das décadas, talvez até pela mudança de usos. Retomar uma planta mais aberta, com maior visibilidade entre os espaços foi um de nossos objetivos”, explica.

 A arquiteta salienta que a escada de um único lance, um elemento clássico da tipologia moderna, foi resgatado. “Foi mantida no mesmo vão original, porém sua configuração foi invertida para convidar os usuários ao primeiro pavimento”, explicou.

A edícula, outro elemento típico daquela época, foi também “reativado”, no quintal. “Foi transformada (a edícula) em ponto apoio dos funcionários e passou a integrar de modo ativo a ambiência do quintal”, frisou.
 
Aliás, depois de muitos anos sem uso, o quintal ganhou um deck, que, segundo Ana, “se constitui em mais um artifício paisagismo acolhedor, com jardim aromático e espécies locais”.
 
“Na parte externa preservou-se os cobogós e a composição volumétrica da casa, bipartida no volume térreo e a “caixa” sacada do primeiro pavimento. Além disso, todas as esquadrias externas em madeira foram restauradas”, enfatiza.
 
De acordo com ela, os elementos novos encaixam-se nos já existentes, sem choques. Entre as “novidades” destacam-se a madeira (jatobá) e revestimentos neutros, como paredes chapiscadas e pintura em acabamento fosco.
 
A área construída é de aproximadamente 340 metros quadrados, incluindo aí a edícula, na parte posterior do terreno. Além disso, tem-se o quintal descoberto com 80 metros quadrados e o pátio frontal, com 69 metros quadrados. Entre projeto e execução a obra levou dez meses.
 
Longa vida ao empreendimento de Ângela dos Anjos e Sérgio Souto! (as fotos de ambientes internos são de Alessandra Botelho; a maior, da fachada, de Phelippe Rodrigues)
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