Antes que Suma

Passado de escadas, colunas, adornos e porões na Rua da Concórdia

Por Jota | 8 de novembro de 2018

Esquecido, vazio e deteriorado este casarão chama a atenção de quem passa pela Rua da Concórdia, no secular bairro de São José, “centro-raiz” do Recife.

Mesmo com a fachada alterada, guarda linhas arquitetônicas que são documentos de um tempo em que aquela região da cidade era endereço de moradia de comerciantes, empresários, gente, digamos assim, abastada.

Erguido muito provavelmente no século XIX, tem três pisos, incluindo um porão no nível da rua e um sótão e, entre esses, um primeiro piso acessado por duas escadas laterais (do lado direito de quem olha a partir da rua).

Uma delas leva à sala principal, cuja porta é antecedida por um terraço sustentado por colunas e balaustrada gradeada.

Na parede, ao lado da entrada, uma imagem de Nossa Senhora de Fátima pintada sobre azulejo pode indicar que a família proprietária tinha conexão direta com Portugal.

A segunda escada leva para um terraço amplo e adornado com colunas de ferro que nada sustentam. O terraço acompanha toda a lateral do imóvel, servindo de acesso a cômodos que parecem quartos, na parte posterior.

Em toda a extensão da construção observa-se uma rede de porões, com compartimentos pouco iluminados e arejados. As aberturas são protegidas por grades.

De acordo com informações de trabalhadores do estacionamento instalado no quintal do casarão, os quartinhos do “subsolo” eram onde os donos guardavam mulheres e homens escravizados.

Sim, a casa, segundo funcionários do empreendimento, teria sido uma espécie de mercado negreiro.

Aliás, o casarão, de certo modo, interessa ou, quem sabe, orgulha quem trabalha no comércio da redondezas.

Ao me ver fotografar, muitos me abordaram para informar que o imóvel é tombado e lamentar as intervenções feitas na fachada. Segundo eles, as portas abertas no térreo “acabaram” com a casa.

De fato, quase metade da fachada está coberta por uma cerâmica que serve de “moldura” para as portas que foram abertas onde existiam janelas (no térreo ou porão frontal).

A intervenção teria sido feita para abrigar uma loja do segmento de refrigeração – muito comum na rua -, mas que nunca teria funcionado por conta de questões relacionadas ao tombamento.

Acima da desgraçada “intervenção”, é só beleza. Há adornos por toda parte. As grades da janelas são em ferro trabalhado.

Na platibanda, um adereço em forma de flor é circundado por arcos sobrepostos em patamares crescentes, formando uma escada. No topo, um pináculo solitário marca o limite (ou o fim) da fachada.

Trata-se de um imóvel grande, rico em elementos arquitetônicos e em detalhes ornamentais. Quem tiver informações sobre história, proprietários, data da construção, tombamento, por favor, as envie para o antesquesuma@gmail.com.

Sobre a Rua da Concórdia, a Fundação Joaquim Nabuco publicou em texto sobre as ruas do Recife:

RUA DA CONCÓRDIA: localizada no bairro de São José, seu nome nasceu de uma disputa entre dois de seus moradores, Manuel José e José Fernandes. Cada um reivindicava o privilégio de ter o seu nome na rua.

Em 1840, por iniciativa do presidente do Conselho Municipal, Maciel Monteiro, 2º Barão de Itamaracá, o impasse foi resolvido: lendo uma poesia de sua autoria, intitulada A Concórdia, propôs aos contendores que a rua se chamasse Rua da Concórdia, o que foi aceito por ambas as partes.

DEPOIMENTOS – Nas redes sociais, leitores se manifestaram quando viram fotos do casarão. Publicaram depoimentos valorosos sobre o imóvel, o bairro de São José e a necessidade de preservar o patrimônio. Resolvi reproduzir aqui para enriquecer o debate.

Alelia Cavalvanti escreveu no Instagram: “Essa casa foi de meu tio. Era linda! Ia de uma rua a outra. Morei por 8 meses aí. Como está acabada, meu Deus! Na parte de baixo, funcionava o armazém de construção e o estoque de mercadoria. Conhecido com Armazém Nabuco, que depois foi para perto do antigo cinema Moderno. Saudade!

No Facebook, Damaris Teixeira postou: “É triste… estudei ao lado desse casarão.. no Porto Carreiro. Lembro que na parte de baixo dele funcionava uma loja de lustres. O Porto Carreiro foi derrubado, dando lugar a um estacionamento e esse casarão se acabando. Como os demais casarões que existiam aí na Rua da Concórdia“. 

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Saiba mais sobre o bairro de São José AQUI (Fundação Joaquim Nabuco)

Relembre posts do Antes que suma que tratam do bairro :

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