Antes que Suma

Chanteclair, o lindo coadjuvante – vazio e sem vida – do carnaval do Recife

Por Jota | 7 de fevereiro de 2018

Conjunto imponente, alvo de olhares magnetizados, o Chanteclair, embora lindo e situado num endereço privilegiado, ao pé da Ponte Maurício de Nassau, tem mesmo uma sina triste.

Seis anos após a recuperação do teto e da fachada, o prédio de arquitetura eclética e inspiração barroca permanece fechado à espera da revitalização interna.

Com o restauro pela metade, continua sem uso e, obviamente, segue em processo de degradação.

A construção ocupa um quarteirão inteiro, entre as esquinas da Avenida Marquês de Olinda com o Cais da Alfândega e Rua da Matriz, no Recife Antigo, e por isso mesmo pode ser apreciado por diversos ângulos.

Está no centro da folia carnavalesca do bairro onde a povoação do Recife foi iniciada e onde a festa de momo tem seu quartel-general na capital.

Pode ser visto já a partir da Maurício de Nassau e por ele passam blocos líricos, maracatus, afoxés, orquestras e troças. Por ele passam também foliões que seguem para o Marco Zero e outros polos da festa     

Quer dizer: o Chanteclair é um lindo coadjuvante, sem vida e sem funcionalidade, do carnaval recifense.  Encanta, mas pode ser visto apenas de fora, de longe. 

Se os projetos anunciados tivessem vingado, o prédio certamente seria um espaço precioso para a folia e os foliões. Quem sabe, estaria novamente sendo ocupado por festas e farras que tanto abrigou no passado.

Com seis blocos, foi erguido no final do século 19 e desde 1998 é tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Inicialmente, teve ocupação mista: reunia moradia, lojas, armazéns e bares no andar térreo. Entre os anos 1940 e 1970 contou prostíbulos e célebres casas noturnas, como Rendeuz Vous e Night and Day. 

Mais recentemente abrigou no térreo, na face da Avenida Marquês de Olinda, o Gambrinus, bar que foi endereço nobre da boemia recifense até meados dos anos 1990.

Nas duas últimas duas décadas, foi alvo de promessas de reformas, negociações entre a Santa Casa (Arquidiocese doRecife) e empreendedores. Nele seriam instaladas salas comerciais, espaço para exposições de arte, lojas, cafés, cinemas, bares…

Mas desde 1988 esse processo se arrasta entre novos anúncios, renovações de prazos, tapumes, redes de proteção, interrupções e reformas superficiais.

Por fim se chegou à situação atual: um prédio histórico com casca bonita mas um conteúdo deteriorado (foram reformados quatro mil metros quadrados de fachada 255 esquadrias de madeira e o telhado).

O Chanteclair mistura neobarroco e neoclássico e apresenta detalhes que mais parecem rendas e laçarotes.

A fachada é recoberta de janelas em arco, pórticos e pequenas sacadas. Tudo feito a partir da onda de afrancesamento que o Recife viveu no começo do século XX. 

Para o folião que aprecia caprichos em forma de adornos, o prédio pode ser uma “disneylândia”. Observe portas, janelas, sacadas, platibandas. Pena que o térreo esteja protegido – e escondido – por um eterno tapume.

Leia mais sobre a restauração do Chanteclair AQUI (G1), AQUI (Diario de Pernambuco) e AQUI (Blog Diario na Redação).

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