Trecho da Bispo Cardoso Ayres reúne casas que merecem ser preservadas e apreciadas

As interseções entre os bairros da Boa Vista, Soledade e Santo Amaro, região central do Recife, reúnem casas de épocas distintas e marcantes no processo de ocupação residencial da cidade.

Entre desprezo, abandono, conversão em pontos comerciais, descaracterizações e algum zelo estes imóveis seguem sobrevivendo.

E alguns seguem guardando linhas e detalhes de beleza que só comprovam o quanto a arquitetura se pasteurizou e uniformizou construções.

Um trecho da Rua Bispo Cardoso Ayres, entre a Avenida Oliveira Lima e a Rua do Príncipe, o recifense tem diante de si exemplares de edificações que se encaixam na realidade descrita acima.

Pelo menos cinco casas resistem naquele pedaço. E, a despeito dos maus tratos e de passarem despercebidas por quem caminha ou dirige pela rua, permanecem inteiras e bonitas.

O bom observador vai encontrar pequenos “espetáculos” nas fachadas. Há adornos, desenhos, portões, janelas, pisos prontinhos para serem apreciados.

Quem é afeito a fotografar reentrâncias da cidade, tem à disposição quadros prontos que unem desenho sinuosos de árvores a belos ângulos das casas.

Na esquina com a Oliveira Lima estão dois sobrados geminados que abrigam estabelecimentos comerciais. Pintados um de verde e outro de amarelo fazem um contraste chamativo.

Com sacada no primeiro andar, contam com detalhes decorativos e janelas de “personalidade”.

As duas seguintes são típicas moradias de classe média da primeira metade do século XX. Tem pequenas varandas, colunas e adornos. O jardim completa o conjunto de “casa de família” conectada à rua.

A quinta apresenta características semelhantes, mas tem linhas bem mais simples. Nela funciona a sede de um partido político e um portão ferro trabalhado protege um pequeno terraço com piso hidráulico.

Explore à Rua Bispo Cardoso Ayres sem moderação. Ao lado das casas elencadas neste post há um conjunto de dois pequenos prédios com traços neocolonialistas.

Mais adiante há um painel de autoria dos arquitetos Régis Cavalcanti e Hélio Costa Lima, na parede lateral de um prédio comercial onde já funcionaram um supermercado e uma central de telemarketing. Veja:

Painel com elementos geométricos de concreto é esquecido na Boa Vista

Também na rua está o conjunto de casas puristas assinadas pelo arquiteto George Munier. Enfim, a rua tem acervo que merece ser tombado e preservado para o bem da memória do Recife.

 

Quem Somos

Josue_NogueiraJosué Nogueira, jornalista formado pela UFPE, com pós-graduação em História Contemporânea pela mesma universidade. Já atuei no Jornal do Commercio, Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco e assessorias de imprensa. Fui repórter e editor de Economia e repórter, blogueiro e colunista de Política. Desde novembro de 2014 edito, no Facebook, a página Antes que suma.

A comunidade virtual e também o site surgiram para documentar a existência de imóveis com valor arquitetônico e histórico que resistem ao descaso de proprietários, à desatenção do poder público e à ganância do mercado de Pernambuco, do Recife em especial. Também têm espaço aqui aqueles que estão mantidos em bom estado e funcionais, provando que o passar do anos não é sinônimo de inutilidade.

O trabalho, portanto, joga luz sobre belezas e peculiaridades de construções de estilos diversos, simples ou suntuosas, que testemunham o passar do tempo e são documentos da conexão do homem com a arquitetura. Sejam elas moradias, edificações públicas ou privadas, comerciais ou religiosos. Enfim, a razão de ser da página e do site é a busca pela valorização e preservação desse patrimônio tão desrespeitado.

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Onde denunciar

Caminhos para se denunciar agressões ao patrimônio e iniciar processo de tombamento ou transformação em Imóvel Especial de Preservação (Iep)

Denúncias de agressão a um imóvel que mereça ser preservado podem ser apresentadas à Diretoria de Proteção de Patrimônio Cultural do Recife, Promotoria do Meio Ambiente e Patrimônio Histórico (Ministério Público), Fundarpe e Iphan.

O ideal é explicitar a relevância histórico-cultural do imóvel e, se possível, um estudo nesse sentido.

A denúncia pode ser feita por particulares, mas se for pelo próprio Poder Público, mais força tem. A Diretoria de Proteção do Patrimônio Cultural do Recife(DPPC) faz esses estudos.

Pode-se também protocolar um pedido de tombamento, tanto na (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) como Instituto do Patrimônio Histórico e Arstístico Nacionak – Iphan

 A lista dos imóveis que estão sendo objeto de estudo para poderem virar IEP fica na DPPC. Para se ter acesso a ela, pode-se tentar um pedido de informações. Não está claro que se os estudos ocorrem em sigilo ou não.

 IEP e tombamento são institutos distintos. Cada um tem procedimentos e consequências diferentes

Para ver como proceder em relação aos IEPs, é precico consultar a Lei Municipal 16.284/97.

 Para tombamento, o imóvel precisa ser federal ou estadual.

 Se a proteção for negada na esfera administrativa, ainda pode haver ação judicial para declarar um bem como IEP ou para tombá-lo.

 OBS: A lista dos IEPS está como anexo na própria lei que os institui, a Lei Municipal 16.284/97

 (Informações da promotora de Justiça Belize Câmara)

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Legislação

Leis que regulam uso do solo e estabelecem limites à construção carecem de “atualização” no Recife

O conjunto de leis e códigos que rege uso de solo e ocupação de espaços urbanos e estabelece limites para construções no Recife é marcado pela falta de atualização.

A lei do Uso do solo (1983):

É a lei básica que trata de como deve se dar a ocupação da cidade, fixa limites para a construção civil e dá garantias de preservação espaços urbanos.
Inicialmente era restritiva e garantia regras “civilizadas” na relação mercado e cidadania.
Mas, “modernizações” incluídas em 1998, a flexibilizaram e a ocupação desmedida dos espaços foi incentivada. As construções chegaram até as calçadas, sem um centímetro de recuo. Os muros cresceram e deram aspecto de fortaleza a edifícios residenciais e comerciais. Enfim, as construções se desvincularam da cidade.

http://www.recife.pe.gov.br/pr/secplanejamento/servicos/leis/lei16414.pdf

https://pt.scribd.com/doc/88578928/LEI-N-16-176-96-Lei-Ocupacao-Solo-Recife

Lei dos 12 Bairros (Lei Nº 16.719 /2001):

Criou a Área de Reestruturação Urbana – ARU – incluindo os bairros do Derby, Espinheiro, Graças, Aflitos, Jaqueira, Parnamirim, Santana, Casa Forte, Poço da Panela, Monteiro, Apipucos e parte do bairro Tamarineira e estabeleceu novas condições de uso do solo nas áreas.
Por meio dela, foram criadas restrições com a intenção de conter a ocupação desenfreada da Zona Norte e desestimular a acelerada verticalização na região.
Ficaram estabelecidos limitação de gabarito, recuos na área verticalizada, construção de calçadas, áreas verdes. Em suma, tentou-se retomar alguma mais conexão entre os edifícios e a cidade.

http://www.ebah.com.br/content/ABAAAA_K8AI/lei-reestruturacao-urbana-aru-lei-dos-12-bairros

Plano Diretor:

É o instituto máximo da ordenação da cidade e a partir dele o Poder Público deve se guiar no que diz respeito à aprovação de projetos imobiliários considerando o adensamento construtivo, a preservação de patrimônio histórico e arquitetônico, a preservação de bens naturais, artificiais e culturais da sociedade recifense, incluídos aqueles bens que são elementos característicos da paisagem (definição elaborada a partir de texto do grupo Direitos Humanos-Recife.

O Plano Diretor, no entanto, vem sendo desrespeitado e o Poder Público o fere frontalmente. Foi aprovado em 2008, mas não foi regulamentado por completo. Algumas partes foram submetidas à regulamentação, mas de forma isolada. A intenção, pelo menos aparentemente, foi beneficiar setores bem específicos. No mercado, esses ajustes ocasionais foram entendidos como facilitadores do projeto Novo Recife, comandado por consórcio de construtoras que quer erguer torres no Cais José Estelita. Também permitiram o surgimento de arranha-céus na área de proteção histórica da Boa Vista e deu o aval para o plano de ocupação da Vila Naval, em Santo Amaro.

http://www.recife.pe.gov.br/ESIG/documentos/Plano_Diretor/Lei%20Plano%20Diretor
%2017511-2008.htm

 
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