Antes que Suma

Passado de charme da Sorveteria Pérola e seu teto coberto por incríveis painéis

Por Jota | 11 de março de 2018

Na semana passada, quem acompanha as redes sociais do Antes que suma (no Facebook e no Instagram – @sovequemvaiape) certamente viu os posts que anunciavam uma festa que aconteceria no dia 08.03.17, no restaurante Pérola, na Rua das Flores, em Santo Antônio.

O evento pretendia reanimar o restaurante, dentro de uma ideia mais ampla de ocupar e dar novo gás ao centro do Recife.

Seria uma espécie de ato de resistência festivo, a partir da valorização de um empreendimento que, apesar do abandono e esvaziamento do centro, tenta se manter funcionando.

Mas o sumiço sem explicações do proprietário, após encontros de preparação do evento, inviabilizou a iniciativa.

Nos posts, lamentamos o impedimento da “revitalização” do Pérola e lembramos que é sempre assim: qualquer movimentação destinada a ocupar e recuperar espaços públicos ou privados em áreas degradadas/negligenciadas enfrenta o risco de esbarrar em interesses financeiros, pressão do mercado, confrontos familiares e por aí vai.

O evento acabou “transferido” para o Sovaj, restaurante vegano instalado na esquina das ruas Princesa Isabel e Sete de Setembro, na Boa Vista.

E, claro, como resultado disso tudo ficou impossível não trazer para o site a história do Pérola.

Primeiro, republicamos aqui texto do Instagram @avidanocentro, de Marília Benevides, que esteve à frente da favor do Pérola. No página do evento “Pérola pulsante”, no Facebook, ela postou:

“Rua das Flores, 135, Santo Antônio. No endereço, bar e restaurante Pérola, nossa procura era pela remanescente sorveteria Pérola, fundada em 1953, tempos áureos dos cinemas de rua que tornava o programa completo com um “gelado” após as seções do Cine Moderno. Já pensaram, depois dos momentos de aperto em “Tubarão” aliviar a garganta com os sorvetes de frutas da região?

Atual administrador, Sr. Gustavo cresceu no comércio do avô, o espanhol Saladino Cortizo Gonzalez, e acompanhou o período em que sua mãe, Hercolina Cortizo, transformou também a sorveteria em lanchonete, até que, ele adaptou o lugar às necessidades da região, com almoço caseiro para os trabalhadores locais.

Resistente, Pérola tem sua estética dos anos de 1950 toda preservada, paredes de mármore e azulejos, pisos de mosaico e o teto todo revestido com o trabalho do artista plástico e professor de Belas Artes Ernesto Lustosa. Seguramente, tomar uma cerveja e ter acesso a esse período incrível do Centro é mesmo uma preciosidade”.

E Marília frisou: “Esse texto faz parte do nosso trabalho no Instagram: @avidanocentro publicado em janeiro de 2017”.

E ela prosseguiu: “Numa visita recente tivemos a triste notícia que o bar Pérola havia fechado.

Inconformados com a possibilidade do Centro perder mais essa preciosidade, procuramos insistentemente pelo proprietário Gustavo Cortizo e o convencemos que, assim como ele tem muita gente que quer ver esse espaço pulsando.

Proposta lançada ao dono: realização de festas periódicas, brilhantes e vibrantes como o Centro deve ser, com Djs, bandas e afins. Vamos dar essa força ao Pérola!”.

Pois bem. O que aconteceu após a mobilização já foi descrito acima.

Na noite da festa do Sovaj, o doutourando em Antropologia (UFPE) Beano Renhaux, que pesquisa roteiros sentimentais do Recife, apareceu para trocar ideias e apresentar o o livro O Recife: pontos de encontro, de Carlos Bezerra Cavalcanti.

Ele fez questão de mostrar o trecho em que a Sorveteria Pérola é destacada (veja nas fotos). O livro, lançado em 1999, informa o seguinte:

“Embora com outra denominação, diferente da sua fase áurea, essa sorveteria ainda esta instalada no final da Rua das Flores, bem próximos aos cinemas Art Palácio, Trianon e Moderno.

O cinemas, infelizmente, não funcionam mais, porém a Sorveteria Pérola, embora com características diferentes, ali está, ativa, conservando os deliciosos sabores de seus sorvetes de coco, sapoti e goiaba, produzidos da mesma forma e pelas mesmas máquinas que lhe deram fama e prestígio por muitas décadas.

Antes da sua fundação, existia no local o Bar Pérola. Em 1953, o estabelecimento foi adquirido pelo espanhol Saladino Cortizo Gonzaga. Hoje, a Sorveteria está sob a responsabilidade de Hercolina Cortizo, filha daquele proprietário hispânico, que nos conta:

“O centro do Recife, naquela época, era muito movimentado. Aos domingos, as pessoas se vestiam com garbo e elegância. As mulheres usavam chapéus, luvas e sombrinhas coloridas. As sorveterias, as leitarias, as confeitarias e os cafés ficavam alegremente lotados e animados pelos mais diversos assuntos abordados na ocasião. Desde o jogo entre América e Sport, que estava se realizando, à praia de Boa Viagem, visitada pela manhã, os programas auditório, de rádio e, posteriormente, de televisão ou filmes ou seriados que acabaram de ser emocionalmente assistidos”.

A Pérola, como se vê, ajuda a contar a história do centro do Recife no século XX. Foi testemunha de hábitos, costumes e do cotidiano que marcaram época naquela região da cidade.

Por ela passaram grã-finos,  boêmios, intelectuais, cinéfilos, gente que se encontrava, se misturava e tinha à sua disposição, no centro, bares, lojas, lanchonetes, sorveterias e cinemas.

Nas fotos, pode-se ver que a sorveteria/restaurante fica no térreo de um pequeno prédio denominado Saladino (nome do homem que comprou o bar e transformou em sorveteria) e onde há uma placa indicando que ali existiu um hotel também chamado de Pérola. Quer dizer, o espanhol deve ter diversificado os negócios.

Saiba mais sobre o bairro Santo Antonio, AQUI(Fundaj)