Antes que Suma

Horizontes e identidade da Soledade roubados por arranha-céus

Por Jota | 5 de fevereiro de 2017

Um giro por dois quarteirões da Soledade e se constata que o bairro está, cada dia, “perdendo horizonte” e, consequentemente, identidade.

Os espigões, avançam, roubam céus, e tiram contornos de imóveis antigos e com evidente valor arquitetônico e histórico.

O fenômeno que se dá na Soledade já se vê no bairro de São José com as chamadas “torres gêmeas”, construídas no cais do Porto do Recife.

Diversas ruas, casarões e monumentos históricos daquela área tiveram seus desenhos e “fundo celeste” roubados pelas tais torres.

Tentem fotografar a Igreja de São Pedro a partir do Pátio do Carmo e vão ver como, obrigatoriamente, os arranha-céus se impõem na paisagem.

Na Rua da Soledade, a igreja que dá nome ao bairro foi engolida por um edifício residencial em construção. Quem vem da Conde da Boa Vista, se depara com o monstro.

Por falar na Conde da Vista, o trecho entre as Ruas Gonçalves Maia e Dom Bosco, perdeu também horizontes. Construções históricas sumiram diante da grandiosidade de prédios que também estão sendo erguidos na área.

Um deles está sendo levantado no terreno atrás do casarão art-nouveau onde funcionou uma casa de recepções localizada do lado direito, no sentido do Derby, um pouco antes da Rua do Padre Inglês.

Logo adiante, do outro lado da avenida, chalés centenários que compunham o conjunto arquitetônico do Instituto de Psiquiatria Luiz Inácio estão quase apagados da paisagem por causa da imensidão de dois espigões – um residencial, outro empresarial – que estão em fase de acabamento.

Já na citada Padre Inglês um edifício espelhado tirou céus do pequeno sobrado onde funcionaram administração e recepção do extinto Sanatório do Recife.

Empreendimento de uma faculdade particular,  o prédio, espelhado, transformou o cenário e ajudará a precarizar ainda mais o já caótico trânsito da rua.

Afinal, mais salas de aulas significam, mais alunos, mais carros, mais comércio ambulante desordenado, mais lixo, mais esgoto estourado e menos calçadas.

Para encerrar, vale lembrar que na Rua das Ninfas, o casarão onde funcionou a residência-estúdio do fotógrafo francês Edmond Dansot foi derrubada para dar lugar a mais um prédio residencial. Esse assunto já foi tratado no Antes que suma:

Casa-estúdio de Edmond Dansot dá lugar a prédio, na Rua das Ninfas

Enfim, sem limites para os gabaritos dos arranha-céus, sem uma política de preservação de patrimônio decente ou mesmo preocupação com questões elementares de urbanização e civilidade, o Recife perde céus e chãos.