Antes que Suma

Rua da Alegria simboliza resistência numa área estrategicamente “esquecida”

Por Jota | 1 de abril de 2019

No mal cuidado coração histórico-arquitetônico da Boa Vista, a Rua Alegria é um misto de decadência e resistência.

Fica entre o Pátio de Santa Cruz e o Mercado da Boa Vista, num trecho onde o comércio se reinventa para sobreviver em meio a moradias e prédios seculares – muitos vazios e carentes de reforma.

Está situada em Zona Especial de Proteção do Patrimônio Histórico e Cultural, mas isso não impede que seja tratada como um trecho periférico bairro.

Apesar do descaso do poder público – em maio de 2013 o prefeito Geraldo Julio (PSB) arquivou projeto de lei que propunha o plano urbanístico específico para a área (uma exigência para as ZEPHs) – a Rua Alegria segue sobrevivendo.

Algumas casas estão em bom estado e outras foram alteradas. Muitas delas estão ocupadas, completamente funcionais, e outras aparentam estar vazias e carentes de recuperação.

Apesar do abandono e dos imóveis deteriorados, a Alegria guarda belezas e memórias do Recife e merece ser visitada.

Mas além disso e, principalmente, merece ser recuperada e mantida longe dos interesses das construtoras, que, com a anuência da prefeitura e vereadores, já invadem a Boa Vista, a partir da expansão do polo médico, na vizinha Ilha do Leite.

Aliás, há quem acredite que o abandono da área seja proposital. Serviria de argumento para a ocupação com arranha-céus.

Veja abaixo o que a comunidade Direitos Urbanos Recife publicou ainda em 2013 sobre a triste situação da Boa Vista:

“A área histórica do bairro da Boa Vista, no entorno do Mercado, está classificada na legislação urbanística como uma Zona Especial de Proteção do Patrimônio Histórico e Cultural e requer um plano urbanístico para definir condições para novas construções dentro dela.

Esse plano chegou a ser apresentado à Câmara, mas foi retirado de pauta pelo prefeito Geraldo Júlio.

Nesse meio tempo, a Prefeitura, ainda na gestão passada (João da Costa, do PT), autorizou a construção de um edifício na área com padrões completamente incompatíveis com a preservação do patrimônio.

Por isso membros do grupo Direitos Urbanos denunciaram o caso ao Ministério Público e agora ele emitiu uma recomendação pedindo a suspensão da autorização de novas obras no local”.

Os anos se passam e não se vê ações do poder público para recuperar, ocupar e preservar a área. Nem mesmo um diálogo com quem tem imóveis na região é estabelecido.

Não sem razão, notícias de desabamentos de casarões se sucedem neste trecho do bairro, principalmente no período em que as chuvas aumentam.

Veja AQUI o documento do Direitos Urbanos e relembre de posts que tratam do patrimônio arquitetônico e histórico da Boa Vista:

Casa surpreendente no coração da histórica Boa Vista

Na casa-galeria de Germana e Rinaldo o lema é “pra preservar, é preciso ocupar”

Abandono de sobrados e até de ruínas simboliza “política” de preservação

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As fotos da primeira galeria são da Rua da Alegria em  2016 e as da segunda, neste ano.

 

Galeria 1 (2016)

 

 

Galeria 1 (2019)