Tradicional restaurante Leite resiste e chega a 135 anos em região desprezada

restaurante Leite, situado na Praça Joaquim Nabuco, no bairro de Santo Antônio, testemunha a história do centro do Recife desde o ano de 1882.

Quer dizer, o empreendimento que vem sobrevivendo a diversas gerações de uma mesma família de origem portuguesa viu o nascimento da República, o fim da escravidão, o seculo XX inteirinho e chega à metade da segunda década do XXI firme e forte.

Conhecido e reconhecido além das fronteiras do país, o restaurante está instalado num casarão que fica na esquina da Praça com a Rua da Concórdia e completa 135 anos em setembro próximo.

A sobrevivência do Leite prova que sofisticação nada tem a ver com prédios espelhados e gigantescos e shoppings, que atualmente são apontados como soluções “modernas” para o comércio. 

Aliás, o restaurante resiste à decadência do centro e faz do endereço “incomum” e da construção antiga aliados da tradição que impressiona e agrada a quem o frequenta e tanto orgulha os pernambucanos.

O site Prazeres da mesa detalha tudo começou em 1882. “O período Imperial estava a um passo da ruína e as manifestações abolicionistas eclodiam por todo o Brasil”.

De acordo com o site, foi em meio a esse cenário de ebulição sociopolítica que, recém-chegado de Portugal, Armando Manoel Leite de França apostou na vocação comercial do Recife abrindo um quiosque para refeições à margem do rio Capibaribe, no centro da sua nova cidade.

“Nem desconfiava ele que o Restaurante Manoel Leite se transformaria em um dos mais antigos do País, um fenômeno temperado pela vontade de perpetuar uma história em que comida e atendimento sempre estiveram em alta conta de todos os administradores que posteriormente lhe cuidaram”.

Por tudo isso, o Leite, tornou-se símbolo para o Recife e para Pernambuco. Sua história, a longevidade (tido como o mais antigo em atividade no país), a qualidade do serviço e o cardápio – a cartola é sobremesa obrigatória – são quase “lendas” para quem é da terra do altos coqueiros.

Em matéria de 2012, quando o Leite completou 130 anos, o jornal O Estado de de São Paulo informa que o restaurante tem tradições mantidas em detalhes: “o palito de dentes, por exemplo, é feito à mão em um convento de Portugal. O rótulo da garrafa de água mineral traz reprodução do azulejo português da fachada. As cadeiras de jacarandá são quase centenárias, as bandejas são de prata, os guardanapos, de puro algodão.

A manutenção do empreendimento num local tão desprezado bem que podia estimular o poder público a recuperar e preservar a região.

A área perdeu cinemas – nas redondezas funcionavam Trianon, Art Palácio e Moderno – estabelecimentos comerciais de diversos segmentos, como a Viana Leal e Sloper, que contribuíam para assegurar movimento e vida no centro.

Mas não se tem notícia de iniciativas de reanimar a região. Quer dizer, a permanência do Leite é uma exceção que confronta a regra de esvaziamento do centro, sucateamento de equipamentos públicos e inevitável desvalorização da área.

Mais informações sobre a história do Leite no links: AQUI  (prazeresdamesa.uol.com.br) e AQUI (Estadão).

Quem Somos

Josue_NogueiraJosué Nogueira, jornalista formado pela UFPE, com pós-graduação em História Contemporânea pela mesma universidade. Já atuei no Jornal do Commercio, Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco e assessorias de imprensa. Fui repórter e editor de Economia e repórter, blogueiro e colunista de Política. Desde novembro de 2014 edito, no Facebook, a página Antes que suma.

A comunidade virtual e também o site surgiram para documentar a existência de imóveis com valor arquitetônico e histórico que resistem ao descaso de proprietários, à desatenção do poder público e à ganância do mercado de Pernambuco, do Recife em especial. Também têm espaço aqui aqueles que estão mantidos em bom estado e funcionais, provando que o passar do anos não é sinônimo de inutilidade.

O trabalho, portanto, joga luz sobre belezas e peculiaridades de construções de estilos diversos, simples ou suntuosas, que testemunham o passar do tempo e são documentos da conexão do homem com a arquitetura. Sejam elas moradias, edificações públicas ou privadas, comerciais ou religiosos. Enfim, a razão de ser da página e do site é a busca pela valorização e preservação desse patrimônio tão desrespeitado.

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Onde denunciar

Caminhos para se denunciar agressões ao patrimônio e iniciar processo de tombamento ou transformação em Imóvel Especial de Preservação (Iep)

Denúncias de agressão a um imóvel que mereça ser preservado podem ser apresentadas à Diretoria de Proteção de Patrimônio Cultural do Recife, Promotoria do Meio Ambiente e Patrimônio Histórico (Ministério Público), Fundarpe e Iphan.

O ideal é explicitar a relevância histórico-cultural do imóvel e, se possível, um estudo nesse sentido.

A denúncia pode ser feita por particulares, mas se for pelo próprio Poder Público, mais força tem. A Diretoria de Proteção do Patrimônio Cultural do Recife(DPPC) faz esses estudos.

Pode-se também protocolar um pedido de tombamento, tanto na (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) como Instituto do Patrimônio Histórico e Arstístico Nacionak – Iphan

 A lista dos imóveis que estão sendo objeto de estudo para poderem virar IEP fica na DPPC. Para se ter acesso a ela, pode-se tentar um pedido de informações. Não está claro que se os estudos ocorrem em sigilo ou não.

 IEP e tombamento são institutos distintos. Cada um tem procedimentos e consequências diferentes

Para ver como proceder em relação aos IEPs, é precico consultar a Lei Municipal 16.284/97.

 Para tombamento, o imóvel precisa ser federal ou estadual.

 Se a proteção for negada na esfera administrativa, ainda pode haver ação judicial para declarar um bem como IEP ou para tombá-lo.

 OBS: A lista dos IEPS está como anexo na própria lei que os institui, a Lei Municipal 16.284/97

 (Informações da promotora de Justiça Belize Câmara)

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Legislação

Leis que regulam uso do solo e estabelecem limites à construção carecem de “atualização” no Recife

O conjunto de leis e códigos que rege uso de solo e ocupação de espaços urbanos e estabelece limites para construções no Recife é marcado pela falta de atualização.

A lei do Uso do solo (1983):

É a lei básica que trata de como deve se dar a ocupação da cidade, fixa limites para a construção civil e dá garantias de preservação espaços urbanos.
Inicialmente era restritiva e garantia regras “civilizadas” na relação mercado e cidadania.
Mas, “modernizações” incluídas em 1998, a flexibilizaram e a ocupação desmedida dos espaços foi incentivada. As construções chegaram até as calçadas, sem um centímetro de recuo. Os muros cresceram e deram aspecto de fortaleza a edifícios residenciais e comerciais. Enfim, as construções se desvincularam da cidade.

http://www.recife.pe.gov.br/pr/secplanejamento/servicos/leis/lei16414.pdf

https://pt.scribd.com/doc/88578928/LEI-N-16-176-96-Lei-Ocupacao-Solo-Recife

Lei dos 12 Bairros (Lei Nº 16.719 /2001):

Criou a Área de Reestruturação Urbana – ARU – incluindo os bairros do Derby, Espinheiro, Graças, Aflitos, Jaqueira, Parnamirim, Santana, Casa Forte, Poço da Panela, Monteiro, Apipucos e parte do bairro Tamarineira e estabeleceu novas condições de uso do solo nas áreas.
Por meio dela, foram criadas restrições com a intenção de conter a ocupação desenfreada da Zona Norte e desestimular a acelerada verticalização na região.
Ficaram estabelecidos limitação de gabarito, recuos na área verticalizada, construção de calçadas, áreas verdes. Em suma, tentou-se retomar alguma mais conexão entre os edifícios e a cidade.

http://www.ebah.com.br/content/ABAAAA_K8AI/lei-reestruturacao-urbana-aru-lei-dos-12-bairros

Plano Diretor:

É o instituto máximo da ordenação da cidade e a partir dele o Poder Público deve se guiar no que diz respeito à aprovação de projetos imobiliários considerando o adensamento construtivo, a preservação de patrimônio histórico e arquitetônico, a preservação de bens naturais, artificiais e culturais da sociedade recifense, incluídos aqueles bens que são elementos característicos da paisagem (definição elaborada a partir de texto do grupo Direitos Humanos-Recife.

O Plano Diretor, no entanto, vem sendo desrespeitado e o Poder Público o fere frontalmente. Foi aprovado em 2008, mas não foi regulamentado por completo. Algumas partes foram submetidas à regulamentação, mas de forma isolada. A intenção, pelo menos aparentemente, foi beneficiar setores bem específicos. No mercado, esses ajustes ocasionais foram entendidos como facilitadores do projeto Novo Recife, comandado por consórcio de construtoras que quer erguer torres no Cais José Estelita. Também permitiram o surgimento de arranha-céus na área de proteção histórica da Boa Vista e deu o aval para o plano de ocupação da Vila Naval, em Santo Amaro.

http://www.recife.pe.gov.br/ESIG/documentos/Plano_Diretor/Lei%20Plano%20Diretor
%2017511-2008.htm

 
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