Antes que Suma

Moradia do passado, Rua São Francisco de Paula merece proteção para o futuro

Por Jota | 25 de abril de 2017

Surgido no século 18 nos subúrbios banhados pelo Capibaribe, o povoado Caxangá fez o Recife se expandir para a Zona Oeste e deu origem a avenida e bairro de mesmo nome.

E, a despeito de todo o progresso sintetizado por arranha-céus, excesso de carros, escassez de civilidade e desordenamento urbano, resquícios do passado estão vivos – e encantando – num pequeno trecho do arrabalde de outrora.

A Rua São Francisco de Paula, a última a fazer esquina, à direita, com a Avenida Caxangá, antes da ponte do mesmo nome, é quase um achado “arqueológico” numa cidade que, embora se orgulhe do seu passado, despreza e destrói suas memórias.

O caráter de rua “descoberta” se justifica não só pelo acervo arquitetônico nela existente. A São Francisco de Paula é pouco conhecida pelos recifenses.

“Escondida” numa área distante 11 quilômetros do centro, a rua e seu casario secular representam novidade para alguns.

Leitores que acompanharam, no Instagram, as publicações que anunciaram a preparação deste post revelaram desconhecer a rua e até mesmo o bairro da Caxangá.

Pois bem. A rua fica depois do Caxangá Golf Country Club,  vizinha ainda terminal integrado de ônibus da Avenida.

No início, até a igreja de São Francisco de Paula, à direita, é calçada. Logo adiante, a terra batida molda o caminho por onde transitam moradores, bicicletas e poucos carros.

Do lado esquerdo estão casarões com fachadas voltadas para a rua e os fundos para o Rio Capibaribe. São construções remanescentes do núcleo habitacional que deu origem ao bairro da Caxangá.

Segundo informações da Fundação Joaquim Nabuco, “em 1833, a povoação era considerada como um dos mais belos e aprazíveis arrabaldes da cidade”.

“Banhada por um rio de águas límpidas, um clima agradável e um terreno muito fértil, desenvolveu-se rapidamente, tornando-se um dos locais preferidos para banhos de rio e veraneio da sociedade recifense”, descreve texto da Fundaj, de autoria de Lúcia Gaspar.

De acordo com a Fundaj, a comunidade possuía também, na margem direita do rio, uma fonte de águas minerais muito procurada por suas propriedades medicinais.

Sobre o acesso dos recifenses àquela área, o texto informa que com a conclusão, em 1842, do primeiro trecho da estrada de Paudalho (hoje, Avenida Caxangá), que partia da Madalena e terminava na localidade, a viagem até o povoado passou a ser feita em uma hora.

“Antes, só era possível chegar a cavalo e, devido às más condições dos caminhos, levava-se cerca de duas horas para fazer o mesmo percurso”.

O bucolismo da área, associado à possibilidade de banhos em água doce e límpida, tornaram o trecho do lado oposto à Várzea um lugar valorizado e ocupado por propriedades de veraneio.

Há chalés sofisticados, outros mais simples. Alguns estão com linhas originais, bem preservados e ocupados por moradores ou servindo como casa de recepções.

Outros, mesmo em pé e em bom estado, tiveram fachadas agredidas. Há ainda casarões do século 20 bem cuidados e habitados. Em contraponto, há casas abandonadas, em ruínas.

Depois de uma sequência de construções decadentes, surge num terreno amplo, um palacete residencial (e habitado), que, pelas características, deve ter sido erguido entre o fim do século 19 e o começo do século 20.

De estilo eclético e clara inspiração neoclássica, possui dois pisos e forma, juntamente, com as árvores e um imenso jardim, um conjunto impressionantemente belo.

Janelas, portas e sacadas da fachada e das laterais apresentam ornamentos. Há motivos florais, referências a liras e até mesmo esculturas.

A soma de caprichos estéticos, arquitetônicos e naturais, é um convite à contemplação. O trecho em frente é sombreado e dá vontade de ficar olhando, descobrindo, se extasiando…

Por falar em escultura, a casa que vem logo após o palacete é um desafio à imaginação e um presente para os olhos. Trata-se da casa-galeria do artista plástico Genézio Gomes.

Escultor com habilidade em resina, pedra-sabão, gesso, cerâmica e concreto armado, Gomes fez da moradia uma obra de arte e nela expõe suas criações. É arte sobre arte.

A casa foge do contexto de história preservada/deteriorada da rua e se apresenta como um quartel-general de criatividade.

Tem três pavimentos, varandões e uma variedade de revestimentos, multicoloridos e espelhados. Há colunas convencionais e “colunas-esculturas”.

Alías, a fachada comporta 13 imagens. Nove delas retratam seres que parecem inspirados em lendas e mitologias. As outras quatro são corujas que estão aboletadas no topo da casa.

Tudo é chamativo, embora harmonioso. É mais um “destino” a se explorar numa eventual ida à Rua São Francisco de Paula. No ateliê, são oferecidas aulas de escultura e o térreo – uma galeria com obras de Gomes – pode ser visitado.

O artista soma 26 anos de atuação. Tem cursos de licenciatura em Desenho e Artes Plásticas pela Universidade Federal de Pernambuco, Escultura e Modelagem pela mesma universidade, Fundição de Metais pela Escola Técnica Federal de Pernambuco e História da Arte Barroca, em Minas Gerais, segundo informa o Anuário Pernambucano de Arte.

Voltando à rua, os imóveis do lado direito (com exceção da igreja e de uma casa vizinha, que funciona como suporte para a casa de recepções), são mais recentes, mas não menos valorosos.

Há residências em estilos neocolonial e modernista. Boa parte é escondida por muros altos. Pelo que se pôde ver, estão em boas condições e funcionais.

A São Francisco de Paula é “destino” que merece ser conhecido e visitado, de preferência a pé e com calma. Além de satisfazer aos olhos, o patrimônio visto na rua agrada à memória do Recife e precisa ser preservado.

Afinal, a história da cidade passa pelos “arrabaldes aprazíveis” e banhados pelo Capibaribe.

Nas galerias, estão fotos de casarões seculares e de casas mais recentes.

Saiba mais sobre historia do bairro da Caxangá AQUI (texto da Fundação Joaquim Nabuco)