Antes que Suma

Salesiano negocia patrimônio com construtora. Vem mais prédio por aí?

Por Jota | 18 de setembro de 2018

O Colégio Salesiano Sagrado Coração, referência da educação em Pernambuco e patrimônio da história e da memória da Boa Vista e do Recife, está negociando parte do seus domínios com uma construtora.

Segundo informações extra-oficiais, colhidas com ex-alunos, funcionários e gente que usa equipamentos esportivos terceirizados pela instituição, as conversas estão avançadas e já resultaram num projeto que inclui edifícios “modernos” destinados a abrigar centros comerciais, salas empresariais, faculdades, consultórios, clínicas médicas, entre outros serviços.

Uma imensa casa de recepções também será erguida ao lado da Basílica do Sagrado Coração de Jesus e ocupará parte do estacionamento do colégio no trecho que acompanha o “finzinho” da Rua Dom Bosco e a esquina com a Rua Joaquim de Brito.

A ideia do tal projeto é obter lucro com áreas que hoje são consideradas “ociosas” ou “vazias”, a exemplo, do campo de futebol, quadras esportivas, jardins e praças de socialização e lazer dos alunos.

O imenso parque aquático e os ginásios cobertos também teriam entrado na negociação. Do mesmo modo, uma alameda com árvores frondosas existente ao lado do campo de futebol estaria sob risco de ser subtraída.

Localizado num imenso terreno entre as Ruas Dom Bosco e General Joaquim Inácio, já no bairro da Ilha do Leite, região central do Recife, o colégio estaria sofrendo com a redução de alunos, fato que decorre, entre outros fatores, do surgimento de grandes colégios em bairros distantes do centro, da diminuição da relevância das instituições religiosas e, por fim, da crise econômica do país.

Por estas e por outras  razões, tradicionais colégios do centro fecharam suas portas, a exemplo do Marista, na Avenida Conde da Boa Vista, e do Nóbrega, na Avenida Oliveira Lima.

Resistem ainda, o Americano Batista e o próprio Salesiano. Ambos expandiram suas atividades, incorporaram cursos universitários à cartela de serviços, mas as notícias sobre a saúde financeira de ambos não são boas.

Agora, o Salesiano, valendo-se do seu patrimônio em “área nobre”, caminha para lotear seu terreno em busca de recursos.

Resta saber se nesta empreitada o conjunto de prédios que hoje abriga salas de aula, secretarias, setores administrativos e o charmoso Teatro Boa Vista será preservado ou estará incluído no pacote de transformações.

Há teses de que parte dos prédios estaria prestes a desaparecer, ficando intacta apenas à igreja. Há ainda informações que apontam para uma “renovação” geral das instalações. Ou seja, mesmo que a estrutura atual não fosse derrubada, seria completamente alterada.

Se isso vier a ocorrer, as linhas arquitetônicas dos prédios do Salesiano desaparecerão juntamente com áreas verdes, passeios e os corredores cobertos que ligam os edifícios.

A torcida é para que o conjunto arquitetônico que tanto encanta na arborizada Rua Dom Bosco e que faz parte da memória afetiva da Boa Vista seja preservado!

Tomara que este projeto de renovação e ocupação respeite as linhas originais e consiga associar a tal “modernização” à identidade do colégio.

O assunto vem inquietando alunos, ex-alunos e pais de estudantes do Salesiano.

Após uma reunião realizada no dia 11 deste mês com pais e responsáveis, a direção do colégio publicou, no dia 14, nota em seu site afirmando o seguinte:

“A última reunião Geral de pais e responsáveis, realizada dia 11/09, gerou ecos positivos, mas algumas demonstrações de preocupação quanto ao futuro do nosso colégio.
Compreendemos perfeitamente a inquietação gerada e queremos esclarecer e reforçar nosso compromisso de manter o Colégio Salesiano em pleno funcionamento.
O colégio não está sendo vendido, alugado ou em parcerias com outras instituições educacionais. Tudo que será feito é para solidificar nossa instituição, que precisa de mudanças para garantir conforto, segurança, bem-estar e continuar oferecendo um serviço de qualidade a todos.
É um projeto muito adequado aos novos tempos, assumido por profissionais competentes, equipe pedagógica qualificada e com a tradição de salesianos com vasta experiência.
Fiquem certos de que tudo que está sendo programado para mudanças físicas, necessárias nos nossos prédios centenários, acontecerá sem nenhum prejuízo acadêmico e com acréscimos significativos ao bem-estar, à qualidade educacional e à satisfação de todos os alunos e cada um de vocês.
Não abriremos mão da NOSSA IDENTIDADE, da NOSSA CONCEPÇÃO PEDAGÓGICA e de uma educação integral, inclusiva, libertadora, profissional e de excelência, ancorada em MATERIAL DIDÁTICO, que está entre os melhores do Brasil”.
O colégio é uma unidade de educação da Inspetoria Salesiana do Nordeste. Segundo a apresentação do seu site, o Salesiano do Recife integra o vasto leque de atividades dos salesianos nessa região nas áreas de educação, evangelização e assistência social. No panorama nacional, faz parte da Rede Salesiana de Escolas. O site informa ainda que o Salesiano instalou-se no Recife em fevereiro de 1895.
Saiba mais sobre a história do colégio AQUI
Abaixo, publicações sobre a região que cerca o Salesiano, na Boa Vista:

OBS:

Poucas horas depois da publicação do texto, a arquiteta, pesquisadora e professora de Arquitetura e Urbanismo na UniFBV Juliana Barreto sugeriu que o Antes que suma publicasse um artigo da sua autoria que detalha o projeto e aponta perdas que a iniciativa do Salesiano vai impor à cidade. Sugestão acatada. Aí está (inclusive com imagens projetadas já com os novos prédios no terreno do colégio):

O conjunto arquitetônico e paisagístico do conhecido Colégio Salesiano, situado no bairro da Boa Vista, teve suas origens em fins do século XIX, com edificações notáveis que sobreviveram ao tempo, como a igreja e seus belos vitrais, os tipos escolares e das quadras esportivas. No entanto, a agradabilidade do espaço, que ocupa a quase totalidade da quadra e tem acesso principal pela arborizada Rua Dom Bosco, parece estar sob ameaça do involutarioso progresso, que não dialoga com a conservação urbana e compromete, de modo, perverso, a qualidade ambiental. Sob justificativas de “dinamização do conjunto”, grupos interessados têm desenvolvido um projeto que estimula o adensamento construtivo, a verticalização e o multiuso, com edificações que chegam a atingir o gabarito de 25 pavimentos – parecem até já estar em negociações. Para se ter uma ideia do impacto, as vias lindeiras, com apenas UMA faixa de rolamento, já se encontram saturadas e o imóvel está classificado nas legislações municipais como IPAV. Vamos entender:

“Art. 101 – Constituem Imóveis de Proteção de Área Verde – IPAV – os imóveis que, isolados e em conjunto, possuam área verde contínua e significativa para amenização do clima e qualidade paisagística da cidade, cuja manutenção atenda ao interesse do Município e ao bem-estar da coletividade, nos termos da LOMR e do PDCR.” (Lei de Uso e Ocupação do Solo da Cidade do Recife, 1997)

“Art. 128. O Imóvel de Proteção de Área Verde – IPAV é uma unidade de domínio público ou privado, que possui área verde formada, predominantemente, por vegetação arbórea ou arbustiva, cuja manutenção atende ao bem-estar da coletividade”. (Plano Diretor do Recife, 2008)

Um IPAV é um imóvel entendido como Unidade de Equilíbrio Ambiental, que tem suas funções paisagísticas associadas às amenizações climáticas e ao desfrute de bem-estar dentro do conturbado cenário urbano. O aumento da temperatura já é um fato e a ausência de uma relação mais profícua entre a verticalização e a capacidade de carga das vias tem sido um desafio intransponível na etapa de aprovação dos projetos. Não é à toa que a taxa de solo natural mínima exigida para os IPAV´s é de 70%. Portanto, com essas breves palavras e algumas imagens do que consegui do projeto, resta apenas lamentar por mais esse triste episódio vivenciado no meu sofrido Recife. Ah, quase esqueci de comentar a ironia do nome do projeto: Oasis.

Reprodução do perfil de Juliana Barreto, no Facebook:

 
Abaixo: galeria de fotos do Antes que suma