Antes que Suma

Pequenos sobreviventes resistem ao “progresso” na Rua dos Navegantes

Por Jota | 18 de janeiro de 2019

Boa Viagem, na Zona Sul, é, provavelmente, o bairro com a identidade original mais agredida do Recife. Por ser endereço da mais badalada praia da cidade sofreu e continua a sofrer consequências da ganância do mercado.

A cultura de se morar perto da praia foi e permanece como atrativo para a construção de espigões que só crescem a cada ano.

Como a região tem adensamento populacional imenso, os terrenos para abrigar os arranhas-céu só aparecem, infelizmente, com a derrubada de casas e de pequenos prédios.

Como consequência, Boa Viagem tem tido sua ocupação urbana e paisagem constantemente transformadas.

Para registrar os pequenos residenciais que resistem no bairro, percorremos a Rua dos Navegantes, uma da mais simbólicas de Boa Viagem.

Primeira paralela da avenida beira-mar, que leva o nome do bairro, a Navegantes ainda conta com alguns poucos prédios de três e quatro andares.

Passamos pelos edifícios Barão de Moreno, Áurea, Guaraci, Jaci, Claudia, Suzie, Girassol, Jaraguá, Cristina, Miramar e Lancaster.

Todos estão ocupados, poucos bem cuidados. Alguns tiveram a fachada alterada e adaptada a atividades comerciais e outros exibem as linhas originais bem preservadas.

Para quem passa de carro, os prédios menores se perdem diante dos espigões que predominam na rua. A pé, é possível uma melhor apreciação.

Começamos a caminhada no sentido da Pracinha de Boa Viagem. Todos os prédios registrados encontram-se do lado direito de quem segue nesta direção.

O primeiro a “aparecer” é o Edifício Barão de Moreno, com térreo e dois pisos. Observem os cobogós na fachada ladeados por varandas generosas com guarda-corpo vazado para a passagem de ar. Um muro alto e feioso esconde/protege o térreo.

Em seguida, surge o Áurea, também com três pavimentos. O prédio tem janelas de madeira na fachada e pequenas varandas na “esquina” da construção.

Na sequência, aparecem, um ao lado do outro, o Suzie e os “gêmeos” Jaci e Guaraci. O primeiro tem linhas bem simples e está bem degradado. Os dois últimos apresentam uma arquitetura mais elaborada e charmosa.

O Lancaster e o Claudia vêm a seguir. Com “traços” muito semelhantes, o primeiro tem pilotis e quatro pavimentos e parece muito bem cuidado.  O segundo tem térreo e mais três andares e aparenta está carente de cuidados.

Depois, vêm o Girassol e suas extensas varandas, e o Miramar e sua aparência de casarão cercado de zelo.

O lindo Jaraguá e seu azul desbotado sofre com agressões que transformaram o seu térreo numa galeria comercial desorganizada. O prédio conta com dois blocos que guardam muita beleza acima do térreo.

As janelas são amplas, assim como as varandas enfeitadas com adornos pintados em branco (borrado). Nas entradas dos blocos escadas levam a uma porta de madeira trabalhada e emoldurada por azulejo.

Logo adiante, está o Cristina. Sem muro e aparentemente 100% ocupado por empreendimentos comerciais, tem “inspiração” moderna e está bem preservado. As linhas, adornos, azulejos e cobogós da fachada estão bem ressaltados pela pintura.

No post, relembramos ainda o lindo Madrid, já destacado em publicação de 2016. Veja:

Quatro andares art déco preservados em plena Navegantes

Também incluímos imagens de um prédio-casa que resiste na Dom José Lopes, uma ruazinha que fica entre a Avenida Conselheiro Aguiar e a Navegantes. Não tem nome, mas tem personalidade.

Transformações – Os pequenos edifícios reunidos aqui sobrevivem à mais alta taxa de verticalização do Recife. Reportagem do Jornal do Commercio que trata das transformações da Zona Sul – de abril de 2018 – informa o seguinte:

“Classificado como área rural na legislação de 1936 (Decreto Municipal nº 374),  o bairro de Boa Viagem registra a maior verticalização da cidade da década de 1970 para os anos 1990, diz Virgínia Pontual, professora do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

 “Havia uma predominância de casas térreas e prédios de no máximo quatro pavimentos em Boa Viagem nos anos 70. Isso se inverte nos anos 90, com concentração de edifícios de mais de dez pavimentos.”

Para se ter uma ideia, 22% das moradias da orla eram casas térreas em 1970 e 40,12% correspondiam a prédios de dois a quatro pavimentos. Os edifícios de cinco a dez andares representavam 24,58% das ocupações e os imóveis com mais de dez pavimentos somavam 13,31%. Da Rua dos Navegantes em direção à Avenida Domingos Ferreira, as casas respondiam por 70,81% da ocupação e os prédios acima de dez andares não passavam de 2,01%, informa a arquiteta”.

Leia mais sobre a ocupação urbana de Boa Viagem:

Boa Viagem: de área rua ao bairro mais verticalizado do Recife (Jornal do Commercio).

Relembre publicações do Antes que suma sobre pequenos prédios do Recife na Zona Sul e outras regiões do Recife:

“Outro lado” do Oceania, o edifício do filme Aquarius

Aquarius estreia e estimula debate sobre preservação e memória afetiva

Oceania: o lindo prédio do filme Aquarius é símbolo de resistência na Zona Sul

Vazio desde 2015, Edifício Andes tem demolição como destino em Boa Viagem

Após acabar com casas, mercado dizima pequenos prédios

“Prédia” permanece de pé, um ano após ter sido esvaziado

Irresistível Tupy, o mais charmoso residencial da Samuel Pinto

Prédio de “casas sobrepostas” é síntese de beleza na Quarenta e oito

Pequenos residenciais firmes e fortes no Espinheiro, Graças e Encruzilhada

Pequenos edifícios resistem e contam a história de se “morar em prédio” no Recife

Discretos, “escondidos”, mas cheios de personalidade na Rua das Pernambucanas 

Pequenos “condomínios” do século 20 resistem na Rua Benfica, na Madalena

Alvo de construtoras e espigões, Boa Vista dos “prédio pequenos” resiste

Edifício Monte Castelo é demolido: a “prédia” sai de cena